PARALIMPÍADAS TESTAM O NOVO RIO

Rio 2016

Desta vez, a recém-inaugurada estrutura viária e de transporte público vai funcionar integralmente e a cidade terá vida praticamente normal durante as competições

(Foto: Rio 2016/Alex Ferro)

Do Rio -- Um dos pontos vulneráveis do Rio de Janeiro para a realização dos Jogos Olímpicos era o seu sistema viário e de transporte público. A Linha 4 do Metrô foi concluída em cima da hora e sequer houve tempo para a realização de testes. Outras obras como o BRT Transolímpica e o Lote Zero, que completava a ligação entre o Metrô e o BRT Transoeste, também ficaram prontos a menos de um mês da abertura dos Jogos. Temia-se o caos nas ruas da cidade, com interdições e faixas seletivas em toda a cidade para garantir a circulação das delegações.

No entanto, a nova estrutura de transportes funcionou bem, apesar de haver em média 342 quilômetros de vias interditadas durante os Jogos. Segundo a Prefeitura do Rio, na verdade, o volume de tráfego na cidade teve uma queda de 11% no período das Olimpíadas. Parte disso se deveu à suspensão ou redução de atividades de empresas locais, motivadas a antecipar férias de funcionários no período, além das férias escolares. Mas trata-se também de um sinal de que as melhorias no sistema de transporte coletivo funcionaram.


Ônibus articulado em via exclusiva: alternativa dos BRTs passa por novo teste (Foto: Sec. dos Transportes do Rio)

As várias linhas de BRT receberam um número recorde de passageiros. Foram 11,7 milhões de pessoas circulando no sistema entre os dias 5 e 21 de agosto, que serviram como teste de estresse para o modal criado para compensar a escassez de metrô.  Também foi registrado o recorde de passageiros em um só dia: 855 mil.

“O maior desafio era justamente a integração com o Metrô”, explica Suzy Ballousier, diretora de Relações Institucionais do Consórcio BRT. Para absorver o grande volume de passageiros que desembarcavam do Metrô em busca de uma conexão até o Parque Olímpico, o consórcio aumentou a frequência dos carros e conseguiu atender à demanda.

“Isso nos dá confiança de que podemos atender uma demanda maior”, avalia Suzy. Ela acredita que o número de passageiros no BRT deve crescer nos próximos meses, mas que as novas linhas darão mais equilíbrio ao sistema, oferecendo mais opções aos passageiros e redistribuindo a demanda entre mais linhas.

Outros recordes positivos foram alcançados no sistema de transportes carioca. O Metrô transportou 13,9 milhões de passageiros no período dos Jogos, tendo batido a marca de 1 milhão de passageiros/dia por cinco vezes.

Já os trens urbanos da Supervia transportaram 9,8 milhões de pessoas no período, com mais de 2 mil viagens extras para atender a demanda dos espectadores nas competições noturnas.

Enquanto isso, no VLT, mais de 720 mil pessoas foram transportadas no trecho de 18 quilômetros entre a Rodoviária e o Aeroporto Santos Dumont, que corta a região central nas proximidades da orla.

VLT, o bonde moderno: agora para ajudar na mobilidade da região central durante as Paralimpíadas (Foto: Alex Costa)

Mas a Olimpíada é passado. O novo teste para o sistema viário e de transporte da cidade acontece em setembro, quando recomeçam as interdições e as faixas seletivas, para receber o rodízio da Tocha Paralímpica e para a Abertura dos Jogos, no dia 7. O esquema de trânsito, no entanto, será menos abrangente, com faixas seletivas especiais funcionando apenas na região da Barra da Tijuca.

Dois dos quatro serviços especiais de BRT funcionarão das 5 da manhã até 1 da madrugada. Para atender os passageiros que vão assistir às competições noturnas no Parque Olímpico, a Linha 4 do Metrô terá embarque estendido também até a 1 hora, na estação Jardim Oceânico. As demais estações metroviárias estarão abertas somente para desembarque, até que o último trem saia do Jardim Oceânico.

A FGV calcula que a entrada em funcionamento da Linha 4 do Metrô vai gerar uma economia de R$ 833 milhões por ano em deslocamentos. O tempo de viagem entre a Barra e o Centro da cidade cairá da média de 2 horas para cerca de 40 minutos. A linha, que liga Ipanema à Barra da Tijuca, funcionará depois das Olimpíadas no período de 11h às 15h.

Outro legado viário importante para a cidade é a Via Expressa, que substitui o antigo Elevado da Perimetral, derrubado para dar lugar à reforma urbana da região portuária. Finalizada em julho, com a abertura do Túnel Marcelo Alencar, a Via ajudou a desafogar o fluxo nos Túneis Santa Bárbara e Rebouças, duas importantes vias de ligação entre a Zona Sul e o Centro.  No horário da manhã, a redução chega a 30% no Santa Bárbara e 20% no Rebouças.

Ainda que positivo, o legado das obras, no entanto, não disfarça a incômoda situação financeira do Estado do Rio. Pouco antes das Olimpíadas, o governador Francisco Dornelles chegou a declarar estado de calamidade pública, em uma manobra para obter verbas federais que permitissem ao governo estadual cumprir compromissos ligados à realização dos Jogos.

A situação fiscal continua crítica, e especula-se que o governo do estado poderia pedir falência. “A falência de um estado da federação seria algo inédito e com consequências jurídicas e políticas muito graves para o país”, avalia Alexandre Espírito Santo, economista da Órama Investimentos.

Espírito Santo acredita que as Olimpíadas não foram decisivas para a situação pré-falimentar do Rio de Janeiro, mas tampouco ajudaram nas contas estaduais. “Quando o Rio de Janeiro assumiu o compromisso de realizar os Jogos, o Brasil decolava na capa da Economist”, lembra.

Depois, veio a recessão no Brasil e a queda do preço do petróleo no mercado internacional, atingindo duplamente a economia fluminense. “A situação é grave em todos os estados, mas é particularmente séria no Rio de Janeiro. Não há como aumentar a arrecadação e as despesas estão engessadas. Vamos viver dias difíceis”, prevê o economista.