Rio 2016

Para comércio, setor de turismo e hotelaria, já não faltavam notícias ruins. E muitos ainda acreditam que o período das Olimpíadas vai ser de desafogo.

(Foto: Carlos Magno/Gov. do Rio de Janeiro)

Do Rio -- Ao justificar o decreto de calamidade pública editado no último dia 17 de junho, o governador Francisco Dornelles afirmou que a crise financeira no Estado ameaça provocar o total colapso de serviços como saúde, educação, segurança e mobilidade. A medida serviu como justificativa para o socorro federal de R$ 2,9 bilhões que viabiliza o cumprimento de compromissos do Estado em relação aos Jogos Olímpicos. O anúncio coroou uma série de más notícias para o Rio de Janeiro que vão do aumento da violência ao desabamento da ciclovia da Avenida Niemeyer, passando pela epidemia de zika. O temor de que o governo estadual eventualmente não tenha capacidade financeira para garantir a infraestrutura de serviços básicos durante as Olimpíadas, no entanto, não parece ter afetado as expectativas – positivas ou negativas – das empresas no Rio de Janeiro.

“Para o varejo, não muda nada”, diz o presidente do Clube de Diretores Lojistas do Rio de Janeiro, Aldo Gonçalves. Segundo ele, os comerciantes em geral não estão muito otimistas com as Olimpíadas e o decreto do governador não altera esse estado de espírito. “A experiência na Copa do Mundo não foi positiva. Houve um monte de feriados mal planejados, ficou mais difícil se deslocar na cidade e tudo isso contribuiu para derrubar as vendas naquele período”, lembra.

Gonçalves explica que mesmo um bom desempenho de vendas durante os Jogos não seria suficiente para reverter o quadro negativo para o setor varejista. “No Rio de Janeiro, a crise tem sido particularmente difícil para os servidores públicos, e metade do funcionalismo do Estado vive na capital. Os servidores públicos não recebem salário e não consomem”, diz. Quanto ao decreto de calamidade pública e o socorro federal, o presidente do CDLRio acredita que a medida de emergência não basta para resolver a crise no Estado. “O déficit do Rio de Janeiro é grande demais”, avalia.

Varejistas que trabalham diretamente com o público turístico, no entanto, são mais positivos. “Estamos contratando um reforço de 20% de pessoal em cada loja para atender à demanda”, diz Patrícia Etchecoin, gerente de Marketing da rede de lojas de suvenires Rio in Box. “Vamos ter um público que nunca tivemos nessa época do ano”, diz. Segundo ela, o estado de calamidade pública não abala as expectativas da empresa. “As notícias vêm e vão muito rápido do noticiário. Tivemos uma onda negativa antes da Copa do Mundo e no final foi ótimo”, justifica Patrícia, que espera uma alta de 50% a 60% nas vendas.

O segmento de bares e restaurantes também é mais otimista do que o varejo tradicional em relação aos Jogos. Áureo Lima, gerente de Marketing da rede de bares e casas noturnas Grupo Matriz, acredita que as notícias ruins sobre a cidade chocam mais os próprios moradores do que os eventuais visitantes, e que o estado de calamidade pública não vai afastar os turistas.

“Espero que a Olimpíada seja uma pausa para dar ânimo”, diz Áureo. Ele aposta que as férias escolares e as férias do funcionalismo durante o período dos Jogos favorecem o movimento, assim como a afluência de turistas. A esperança é de que o movimento seja melhor do que o da Copa do Mundo, em 2014. “A Copa foi boa, mas não tanto quanto esperávamos. Desta vez, o evento é concentrado no Rio de Janeiro, o que pode ajudar”, diz. Ele conta que, em média, a rede do Grupo Matriz recebe 24 mil pessoas por mês em seus quatro estabelecimentos, mas que o ano tem sido difícil por causa da crise econômica. “Tivemos o pior verão em 16 anos de atividades.”

Já o setor hoteleiro mantém a face do otimismo. Ao menos para o período dos Jogos. Segundo Alfredo Lopes, presidente da seção fluminense da Associação Brasileira de Hotéis (ABIH-RJ), a rede hoteleira da cidade terá uma ocupação de praticamente 100% durante as competições. Segundo ele, não tem havido devoluções por parte das agências de viagens e o noticiário negativo não teve influência nas reservas. “Houve devoluções, sim, mas de vagas no período anterior aos Jogos e nas datas da Paralimpíada.”

No período dos Jogos Paralímpicos, a ABIH-RJ informa que a ocupação está entre 46% e 50% . “Vamos fazer uma campanha nacional para atrair turistas nesse período, oferecendo pacotes com descontos”, explica Lopes.

Viegas: rede de hotéis garante 100% de ocupação com empresa patrocinadora
Viegas: rede de hotéis garante 100% de ocupação com empresa patrocinadora (Foto: divulgação)

Hotéis que fecharam pacotes para organizações envolvidas no evento preocupam-se menos com os altos e baixos do noticiário. É o caso da Rede Arena. “Estamos com o Arena Copacabana fechado para receber o pessoal da Nissan, que é patrocinadora, e os hotéis do Leme e de Ipanema estão reservados para emissoras de TV. As reservas estão 100% vendidas e não há possibilidade de cancelamento”, explica Douglas Viegas, gerente-geral do Arena Ipanema. Sobre o estado de calamidade pública, Viegas acredita que não irá afetar os Jogos. “O Brasil sempre se supera nos grandes eventos. Vamos nos superar de novo e passar uma boa imagem mais uma vez”, aposta.

Raphael Pazos, diretor do Mar Palace Copacabana Hotel, no entanto, observa que o sucesso pode não estar garantido para todos. Segundo ele, as reservas foram vendidas pelos hotéis ao Comitê Olímpico, que repassou à agência de viagens oficial, no caso, a TAM Viagens. “E parte dessas vagas foi repassada a terceiros”, diz. “Com isso, ter as reservas vendidas não quer dizer que teremos lotação esgotada.”

Raphael explica que o Mar Palace negociou 80% de suas vagas com o Comitê. As restantes foram passadas para um agente internacional, a israelense Isstar, parceira do hotel. “Da cota que vendemos ao Comitê praticamente nenhuma vaga foi devolvida”, conta. “Mas o nosso parceiro está com dificuldade de vender a parte dele.” O diretor do Mar Palace questiona: “Por que não deixar os hotéis venderem livremente seus quartos em vez de colocar tantos intermediários?”

Fernanda Barge, coordenadora de Produtos da agência de receptivo Infinity & Journey, lamenta não poder atender à demanda de seus clientes latino-americanos interessados em vir ao Rio para os Jogos. “Há demanda, mas não temos acesso aos pacotes que ainda restam”, diz. Segundo ela, a procura continua alta, apesar das notícias negativas sobre a cidade. “Isso é algo que influencia, mas nem tanto. Especialmente entre o público latino, que vive uma realidade mais semelhante com a nossa”, conclui.