CRIMINALIDADE CRESCE ÀS VÉSPERAS DAS OLIMPÍADAS

Rio 2016

Número de roubos na cidade é recorde, policiais receberam salários com atraso e notícias sobre violência assustam visitantes. Mas Secretaria de Segurança garante que haverá paz durante evento.

(Foto: André Gomes de Melo - Secretaria de Segurança do Rio)

Do Rio de Janeiro - A pouco menos de um mês para a abertura dos Jogos Olímpicos de 2016, o Rio de Janeiro volta a ser assombrado pelo aumento da criminalidade. De janeiro a maio deste ano, o Estado registrou 48.429 roubos de rua, segundo dados do ISP (Instituto de Segurança Pública) – o maior número em onze anos.  Só em maio, foram 7.487 roubos de pedestres, 1.030 roubos dentro do transporte coletivo e 1.451 roubos de celulares, segundo dados do Instituto de Segurança Pública do Estado.

Além disso, a ocorrência de arrastões nas Zonas Norte e Sul, e incidentes como o roubo de equipamentos de uma TV alemã – posteriormente recuperados – contribuem para aumentar a sensação de insegurança tanto do carioca quanto dos esportistas e turistas que pretendem vir para a cidade em agosto e setembro. Mas apesar da recente alta no número de crimes, a Secretaria de Segurança do Estado defende seu legado.

Segundo o subsecretário extraordinário para Grandes Eventos da Secretaria de Segurança do Rio, Roberto Alzir, os índices de criminalidade ainda são inferiores aos de 2007, no início da gestão do secretário José Mariano Beltrame. “Isso não diminui nosso empenho para reverter este quadro de resultados indesejáveis que certamente voltarão a declinar com a normalização do cenário econômico e político”, ressalta Alzir. 

Renato Sérgio de Lima, do Fórum de Segurança: dever de casa feito para os Jogos e preocupação com o pós-Olimpíadas
Renato Sérgio de Lima, do Fórum de Segurança: dever de casa feito para os Jogos e preocupação com o pós-Olimpíadas (Foto: André Telles - divulgação)

A normalização depende do andamento da crise financeira no Estado. Na segunda-feira (4/7), o governo do Estado pagou a segunda parcela do salário de maio para policiais civis e militares. E na quarta (6/7), pagou em parcela única o salário de junho. Alzir explica que a liberação de recursos federais permitiu à secretaria honrar seus compromissos. “Assim, pudemos dar aos policiais a serenidade necessária para proteger a população”, diz. Segundo ele, foram levadas em conta também outras demandas apresentadas pelas Polícias Militar e Civil, que incluíram a definição do pagamento do RAS Olímpico (sistema de horas extras especial para os Jogos). 

Os salários, no entanto, são apenas uma parte do problema causado pelo colapso financeiro.  “As delegacias, o IML, as perícias técnicas, está tudo em péssimo estado”, afirma Fernando Bandeira, presidente do Sindicato dos Policiais Civis do Estado do Rio. O motivo é a falta de caixa para o pagamento de serviços de limpeza, manutenção e mesmo vigilância para as instalações dos órgãos de segurança.

A falta de dinheiro também impede o crescimento do efetivo de policiais, que é insuficiente para dar conta do Estado. O sistema de horas extras é usado como paliativo para minimizar o problema. A promessa de ter 62 mil homens na PM em 2016 não foi cumprida (atualmente são 50 mil) e mesmo a meta de 62 mil está abaixo da necessidade do Estado, que seria de 90 mil policiais militares, na avaliação do secretário Beltrame.

“A situação é mais grave na Polícia Civil, que conta com apenas 10,5 mil homens. Uma lei de 1983 diz que o efetivo deveria ser de 23 mil policiais e nunca chegamos perto disso”, reclama Bandeira.

 Apesar de todos os problemas, espera-se que a criminalidade decresça à medida que os Jogos Olímpicos se aproximam, em função do reforço externo que a cidade começa a receber. Com isso, serão 85 mil homens, entre policiais, militares e demais agentes, no maior aparato de segurança já montado para um evento na América do Sul.

Carga encontrada depois do roubo: duas carretas com mais de R$ 1 milhão em equipamentos da TV da Alemanha
Carga encontrada depois do roubo: duas carretas com mais de R$ 1 milhão em equipamentos da TV da Alemanha (Foto: divulgação Polícia Civil)

Com isso, militares já patrulham áreas turísticas como a Avenida Atlântica. O esquema para os Jogos foi montado com a colaboração das forças de segurança dos três níveis de governo. Segundo Alzir, “tudo foi alicerçado em uma criteriosa análise de risco que mapeia as principais ameaças à segurança dos Jogos Rio 2016 e condiciona a adoção de medidas preventivas, antecipatórias e de pronta resposta por parte das diversas forças públicas envolvidas”, diz.

“Lembro ainda que em todos os eventos anteriores, a segurança foi um item bem avaliado, com aprovação de mais de 80% da população e turistas, que visitaram o Rio em outras oportunidades”, completa Alzir.

Apesar de ressaltar que o risco de terrorismo existe, Renato Sérgio de Lima, vice-presidente do Conselho do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, avalia que as autoridades brasileiras fizeram o dever de casa nesse quesito. “Além do treinamento e do reforço no efetivo, contamos com um trabalho integrado, com 200 agências de inteligência do mundo todo trocando informações para prevenir ataques, portanto esse risco foi mitigado”, explica.

A preocupação maior de Lima é com o cenário da segurança no Rio de Janeiro depois das Olimpíadas, quando o esquema de segurança for desmobilizado. “O aumento da criminalidade nos últimos meses traduz na verdade uma crise recorrente, que nunca foi debelada”, critica. “Na prática, temos uma sociedade violenta, que provoca uma reação violenta do Estado, que na maioria das vezes só alimenta esse ciclo.”

 O problema, no entanto, não é exclusivo do Rio de Janeiro. “O Estado é apenas a parte mais visível do problema”, destaca Lima. “Mesmo São Paulo, que reduziu os homicídios, convive com uma taxa absurda de roubos e uma tremenda sensação de insegurança.”

Segundo Lima, o país – e não apenas o Rio – deve mudar o eixo da sua política de segurança. Ele enumera o que considera as bases para uma segurança mais efetiva: “Aproximar a polícia da população, resgatar a confiança nas instituições, usar informação de modo inteligente, aumentar a transparência e o accountability e investir na integração operacional das forças de segurança”, diz. “Mas precisa de vontade política para fazer isso de forma permanente, sem depender de grandes eventos ou do calendário eleitoral”, conclui.