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Cresce o número de empresas de tecnologia que prestam serviços financeiros pela internet e abrem concorrência com os bancos tradicionais. Como o PagSeguro, de Juan Fuentes, que faz sucesso com a 'Moderninha'.

Lembra de quando você tinha que ir a uma agência bancária, entrar na fila do caixa para “tirar dinheiro”? Você emitia um cheque, entregava ao funcionário do caixa, ele conferia se havia saldo em um formulário e entregava os cruzeiros requeridos. Não havia caixas eletrônicos no Brasil até meados dos anos 80 e cartão de crédito era coisa para poucos.

Se você tem menos de 40 anos não deve ter vivido essa espécie de emoção financeira. O primeiro caixa eletrônico no país foi instalado pelo Itaú em 1983 em Campinas. Era uma novidade, um bicho estranho para o qual se olhava desconfiado. Será que ele vai me dar o dinheiro que estou precisando? Às vezes não dava mesmo e era preciso correr de novo para dentro da agência e reclamar.

A partir de então, a tecnologia bancária brasileira avançou rapidamente. O cartão assumiu cada vez mais o papel do talão de cheques para a conexão da vida diária com a conta corrente. Nos anos 90, mesmo antes da internet, já se fazia bem mais via caixas eletrônicos do que retirar dinheiro – depósitos, verificar saldo, pagamento de contas e acho que só.

Mas foi com a internet, principalmente a partir da virada do milênio, que os clientes dos bancos se deram conta que quase não frequentavam mais as agências. Quase tudo se faz em casa, usar dinheiro vivo passou a ser opção, não mais o padrão.

Mas é agora, após os três primeiros parágrafos de história e blá-blá que chegamos à era das chamadas “fintech”, as “startups” voltadas aos serviços financeiros, que fazem tudo por cartão e pela internet, de preferência pelo próprio celular.

Bradaschia, da FintechLab: estimativa de 200 "fintechs" em atividade no país
Bradaschia, da FintechLab: estimativa de 200 "fintechs" em atividade no país (Foto: arquivo pessoal)

Marcelo Bradaschia, que comanda a FintechLab, uma empresa criada para pesquisar e analisar essas inovadoras empresas do setor financeiro, define “fintechs” como “iniciativas tecnológicas que trazem mudança e maior eficiência aos serviços financeiros”. Para ele, não se pode dizer que os bancos tradicionais tenham uma “fintech”, já que o modelo de negócios ainda é o mesmo de sempre, com custos e cultura típicos das grandes redes bancárias.

Segundo a pesquisa mais recente do FintechLab, foram mapeadas pouco mais de 200 empresas em atividade que podem ser denominadas “fintechs”. “Mas estimamos que somando projetos ainda em 'business plan' e algumas muito pequenas e que não visualizamos, o total hoje pode superar as 350 no país”, calcula Bradaschia.

Com menores custos na operação, elas normalmente cobram taxas menores e podem oferecer rendimentos melhores do que os bancos tradicionais. Em 2015, chegou ao Brasil ao Nubank, um banco eletrônico que faz do cartão a própria agência. Neste ano, o Banco Original (do Grupo J&F, dono entre outras empresas da JBS Friboi), que já existia no formato tradicional, relançou-se como banco 100% eletrônico.

Serviços segmentados e similares aos desses novos bancos, porém, estão no mercado há anos e talvez você já tenha usado, sem saber que estava dando seus primeiros passos no mundo das “fintechs”. A Pay Pal, por exemplo, uma empresa de meios de pagamento internacional, garantidora de  compras e vendas via web, é uma delas. A Moip e o PagSeguro, que fazem o mesmo, são outras do segmento.

A PagSeguro, do Grupo UOL, ligado ao jornal Folha de S. Paulo, é um pioneiro nacional na área. A empresa surgiu em 2006 como uma intermediadora de realização de negócios entre vendedor e comprador na internet e tornou-se líder no segmento. “Os pequenos comerciantes não tinham serviços disponíveis para garantir pagamentos às suas vendas na web. E passamos a oferecer aqui o que o Pay Pal já´fazia pelo mundo”, explica Juan Fuentes, diretor do PagSeguro.

Mas a empresa explodiu em popularidade neste ano ao lançar a “Moderninha”, terminal de pagamento por cartão de crédito e débito que funciona por sinal de celular e wifi. Com ele um taxista ou um vendedor autônomo podem receber pagamentos por cartão de débito e crédito.

“Esse modelo de integrar o pagamento com cartão ao celular nasceu há uns quatro anos. Primeiro se testou um leitor de tarja magnética acoplado ao celular, depois equipamento “pareado” ao smartphone. Em março deste ano lançamos a maquinha com chip, que tem conexão direta via celular. E optamos pelo modelo de negócio de venda do aparelho, não o aluguel, como outros fazem”, resume Fuentes.

Felipe Menezes, da Bridge Research: desafio é vencer o medo da clientela tradicional com transações digitais
Felipe Menezes, da Bridge Research: desafio é vencer o medo da clientela tradicional com transações digitais (Foto: divulgação)

Para ele, as “fintechs”, como o PagSeguro, são uma espécie de “uberização” dos serviços bancários. A Moderninha, que em apenas seis meses tornou-se um case de sucesso, a galope de campanha massiva na televisão com a atriz Alessandra Negrini, é voltada para a “base da pirâmide” de negócios, como frisa o diretor do PagSeguro.

A respeito da concorrência que essas empresas estão gerando aos grandes bancos, o gerente de planejamento da Bridge Research, Felipe Menezes, vê as instituições tradicionais trabalhando na transição entre os canais habituais e os modelos on-line. “A questão é vencer as barreiras de adoção pelos clientes do acesso a dispositivos digitais e superar o medo que muitos têm de fazer transações pela internet”, avalia Menezes.

Ele acrescenta que, por outro lado, os bancos ainda esbarram no mundo analógico, dadas as exigências normativas do Banco Central de envio de documentos físicos, como os de contrato de crédito imobiliário.

“É uma grande mudança de filosofia de atendimento e negócios. Neste momento, as 'fintechs' ainda são relativamente pequenas, comparadas aos cinco maiores bancos do país. Mas a simplicidade de operação que elas oferecem ao cliente tende a influenciar a rede bancária a inovar e também simplificar o portfólio de produtos.”, diz.

Para Menezes, as "fintechs" têm como pressuposto criar sistemas em que o usuário "se vira sozinho". E essa filosofia, que para ele vai contra a cultura predominante nos bancos tradicionais, tente a atingir uma massa cada vez maior de pessoas e aí sim os bancos que não se prepararem vão perder mercado.

Bradaschia, do FintechLab, concorda. Ele não vê os bancos afetados pela aparição das pequenas empresas que atuam em segmentos financeiros. “Os grandes bancos estão sendo atingidos neste momento mais culturalmente do que financeiramente. As 'fintechs' têm potencial de crescimento rápido. E os grandes bancos estão sendo desafiados a buscar soluções, a repensar precificação de seus serviços, já que os custos desses concorrentes ainda pequenos é muito menor”, resume.