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A remuneração dos gestores brasileiros, antes acima da média mundial, encolheu bastante com a crise. As empresas enxugaram no primeiro escalão e procuram agora profissionais que acumulem várias áreas por remuneração menor, avisa Sofia Esteves, especialista em Recursos Humanos

A crise econômica acertou em cheio o mercado de trabalho também para os cargos de gestão. Os executivos, além de enfrentar avalanche de demissões nos últimos anos, estão sendo obrigados a aceitar a redução dos padrões salariais na hora da recolocação e mudança no próprio perfil de atuação. Para manter ou obter o emprego, quem atua em cargos de liderança precisa estar preparado para ampliar suas atribuições, o que, segundo os especialistas em recrutamento e seleção, é tendência que veio para ficar.

“As empresas reviram suas estruturas hierárquicas, demitiram executivos que tinham uma remuneração muito alta, mas também promoveram e realocaram profissionais com novo perfil para reduzir custos e aumentar a produtividade. A palavra de ordem é fazer mais com menos”, conta Sofia Esteves, fundadora e presidente do conselho de administração da DMRH.

As estruturas das empresas ficaram mais horizontais e não foi raro que um executivo passasse a acumular responsabilidade por várias áreas. “Houve, de fato, uma redução no alto escalão. Muitas empresas eliminaram o segundo e o terceiro nível hierárquico”, comenta Jorge Kraljevic, managing partner da Signium no Brasil.

Weber, da Odgers Brasil: busca por perfil de executivo mais afeito à gestão na crise
Weber, da Odgers Brasil: busca por perfil de executivo mais afeito à gestão na crise (Foto: Odgers/Divulgação)

“Nós passamos a trabalhar bastante buscando executivos que tivessem um perfil mais adequado às necessidades das empresas durante a crise. Um diretor comercial capaz de pensar em novos canais, alternativas e negociações. Um financeiro com histórico de atuação em crises econômicas anteriores ou com facilidade para lidar com a readequação de orçamentos”, lembra Luiz Weber, CEO da Odgers Brasil. A maior parte das posições para as quais a consultoria buscou executivos não foram novas, mas surgiram com o objetivo de substituir profissionais.

Por isso mesmo, o sócio-diretor da Exec, Alexandre Zuvela, diz que muitos processos seletivos foram realizados de maneira confidencial. “No período do início de 2015 até o primeiro semestre deste ano, a consultoria registrou um aumento de cerca de 40% na demanda por executivos para liderar mudanças nas áreas de finanças, controladoria, compliance e operações.

“Trata-se de uma visão claramente focada em ganho de produtividade e redução de custos”, reforça. Já as áreas comercial, de marketing e de novos negócios foram as que mais reduziram o número de vagas.

A dança de cadeiras que vem acontecendo desde o ano passado, segue a mesma lógica de desaceleração da economia, que afetou principalmente as empresas dos setores de infraestrutura, óleo e gás, varejo e indústria.

O agronegócio, a educação, a indústria de papel e celulose e a farmacêutica têm passado um pouco melhor por esse período. O setor de tecnologia é outro que se pode dizer que vai bem. No entanto, seu crescimento não tem muito reflexo na contratação de executivos. Traz mais oportunidades para especialistas com atuação técnica.

Zuvela, da Exec, estima que o índice de desemprego no mercado de executivos esteja perto de 20%
Zuvela, da Exec, estima que o índice de desemprego no mercado de executivos esteja perto de 20% (Foto: divulgação)

“Este ano foi muito ruim em termos de recrutamento e seleção de executivos”, afirma Zuvela, da Exec. Na percepção da consultoria, o índice de desemprego de executivos no Brasil está em torno de 20%. “Há pessoas extremamente competentes demorando mais de um ano para se recolocar”, complementa.

Além disso, profissionais que estavam preparados para assumir posições de maior responsabilidade foram promovidos, mas com remuneração menor do que o dos executivos que foram demitidos. O resultado é que os profissionais de gestão estão tendo que aceitar remunerações menores.

“A verdade é que os salários estavam muito inflacionados. A falta de profissionais qualificados no país levou à oferta de remunerações acima da média até de países desenvolvidos. O que representava um alto custo para as empresas e prejudicava movimentos de expatriação. Agora estamos chegando a patamares compatíveis aos do mercado global”, avalia Sofia, da DMRH. 

Nesse cenário, Kraljevic, da Signium, explica que, no alto escalão, a chamada remuneração variável ganha maior peso. De acordo com ele, além de levar em consideração a proposta de trabalho, os executivos passam a olhar para o bônus que podem receber anualmente e no longo prazo. “Coisa que no passado existia, mas não era tão importante quanto é hoje.”

No entanto, não há só notícias ruins no horizonte. “Neste último trimestre já sentimos uma melhora no humor do mercado. Há muitas empresas com planos de investimento engavetados, e algumas estão voltando a olhar para eles. Ainda não deu para sentir uma retomada das contratações. Mas já há empresa nos sinalizando que em 2017 voltarão a contratar com mais vigor”, diz o diretor da Exec.

Essa percepção é compartilhada pelos demais especialistas ouvidos pela Gazeta Mercantil Experience. À medida que as organizações vislumbram a estabilidade econômica, a queda da inflação e da taxa de juros, voltam gradativamente a fazer investimentos. Como os cortes já foram feitos e quem ficou trabalha no limite da sobrecarga, será inevitável voltar a contratar quando a economia se reaquecer.

Quem foi contratado para arrumar a casa deve permanecer. Não apenas porque ajudou a empresa a passar pela crise sem fechar as portas, mas também porque tem o perfil que continuará a ser buscado.

O profissional que as empresas querem em seu time de líderes é aquele que atua com senso de dono, ou seja, pensa e age como se fosse o fundador da empresa. Ele também sabe se relacionar bem com a equipe e obter o melhor desempenho dela, mesmo em contextos de trabalho influenciados por novas tecnologias, em que é possível ter pessoas atuando a partir de suas casas, em qualquer lugar do mundo.

O novo perfil de executivo deve também ser capaz de envolver pares e clientes na busca de soluções integradas para os problemas. É um autodidata que se atualiza e aprende continuamente. Além, é claro, de ser resiliente às mudanças de rumo às quais o ambiente de negócios está sujeito a todo momento, devido ao avanço cada vez mais veloz da tecnologia.

“O conhecimento é importante, mas a atitude tem sido mais”, resume Zuvela, da Exec.