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Pequenos negócios, franquias e startups aproveitam o espaço deixado pelas empregadas nos lares brasileiros para faturar com serviços de limpeza e faxina terceirizada 

A nova lei para a contratação de empregados domésticos, conhecida como a “PEC das Domésticas”, que a partir de 2013 deu a eles os os mesmos direitos trabalhistas das demais categorias profissionais, teve como efeito colateral o encarecimento da contratação desses trabalhadores para as famílias de classe média. A consequência desde então foi a demissão de boa parte delas, principalmente em casas de classe B e C, que passaram a optar pela compra de utensílios e equipamentos de limpeza para a divisão de tarefas entre os familiares e a contratação de serviços terceirizados de faxina, o que acabou por gerar um novo e promissor mercado para empresas do segmento.

De acordo com a Pesquisa de Emprego e Desemprego, do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Econômicos (Dieese), o número de empregadas domésticas no total de mulheres que trabalham fora diminuiu em 2015 pelo terceiro ano consecutivo -- para 13,1% na região metropolitana de São Paulo, a menor participação entre as mulheres ocupadas desde o início da pesquisa, em 1992.

Ao mesmo tempo, a mudança fez brilhar os olhos de empreendedores atentos. Um deles foi Rodrigo Morales, hoje diretor da Clean Home, uma rede de franquias de serviços profissionais de limpeza doméstica. “Desde quando a nova regulamentação começou a ser discutida, começamos a estudar e traçar alguns planos de negócios para confirmar se esse seria um mercado promissor. E confirmamos o que esperávamos. O mercado estava sedento por esse tipo de serviço”, afirma.

A Clean Home começou a operar, em 2013, como braço doméstico do grupo Grupo Good Services, que já tinha know how em limpeza profissional para empresas. À época, os concorrentes identificados eram apenas as diaristas e as empregadas domésticas. Hoje já há diversas outras empresas oferecendo diferentes modelos de serviço de faxina.

“Começamos a atuar em Guarulhos e divulgamos o serviço apenas em uma revista local. E, para nossa surpresa, até o final do dia em que a revista começou a circular, já tínhamos recebido 50 ligações de interessados. Nem estávamos preparados para atender a essa demanda”, conta Morales.

Eduardo Giglio, da Bumpla, que criou aplicativo para a contratação de faxineira pelo celular
Eduardo Giglio, da Bumpla, que criou aplicativo para a contratação de faxineira pelo celular (Foto: divulgação)

Mesmo sem fazer publicidade do serviço fora de cidade, a demanda continuou a aumentar e passou a vir de diferentes bairros da capital paulista, impulsionada pela recomendação boca a boca. Hoje, a Clean Home tem franquias nas cidades de São Paulo, Guarulhos (além da operação própria) e Recife. A meta, a longo prazo, é ter uma base em cada capital.

Outro modelo de negócio também voltado a atender a procura por faxineiras foi o encontrado pela startup Blumpa. Trata-se de uma plataforma que conecta pessoas e empresas com profissionais de limpeza. A ideia é permitir que se agende, cancele e se refaça a contratação do serviço de faxina com facilidade e segurança, diretamente no site da empresa, pelo computador ou celular. A empresa ganha percentual com a intermediação entre cliente e o prestador de serviço.

O processo é muito simples e rápido. No site, o interessado em contratar uma faxineira indica o tamanho da casa ou empresa a receber a faxina e detalha como quer que a limpeza seja feita. No caso de uma residência, é possível, por exemplo, solicitar que a geladeira e o fogão sejam limpos internamente. Com base nessas informações o cálculo do valor do serviço é feito e fica próximo à média cobrada pelas faxineiras contratadas diretamente.

Segundo Eduardo Giglio, CEO da Blumpa, a PEC das domésticas não apenas foi um dos motivadores do início do negócio, que surgiu da necessidade pessoal de um dos fundadores, como foi um grande propulsor da demanda. Sem detalhar números, ele conta que o negócio se mantém crescendo. Seus maiores concorrentes ainda estão mercado off-line. São os amigos, porteiros e agências que indicam as faxineiras quando alguém precisa e não tem referência de onde encontrar.

“Enxergamos um futuro em que serviços como o nosso integrarão cada vez mais o cotidiano das famílias e dos indivíduos nas grandes cidades. Pretendemos oferecer uma gama maior de serviços e nos tornamos o ‘botão de ajuda de sua casa’ para cada vez mais pessoas”, conta Giglio. O executivo também vislumbra oportunidades em serviços de manutenção e serviços auxiliares, como mudanças. 

Renata Rondon, da US Franchising: apesar da crise, segmento de serviços para limpeza doméstica cresce
Renata Rondon, da US Franchising: apesar da crise, segmento de serviços para limpeza doméstica cresce (Foto: divulgação)

Para Renata Rondon, diretora da US Franchising, consultoria que formatou a franquia da Clean Home, só não há mais negócios que prestam serviços domésticos devido à crise econômica. Mesmo assim, os números só crescem. “Para se ter uma ideia, o segmento de lavanderias cresceu em torno de 25% em 2016. E isso se deve diretamente à redução do número de empregadas domésticas nos lares”, ressalta ela. As empresas do segmento ainda têm como argumento de venda dos serviços a economia de água, energia e tempo.

A Polishop, conhecida pelos eletrodomésticos que até parecem mágicos, também viu seus produtos ganharem mais espaço. Segundo João Apolinaro, presidente da empresa no Brasil, o juicer; a fritadeira elétrica sem óleo; a panela de pressão elétrica, que pode ser programada e desliga sozinha; a panela com acabamento em pedra, que não gruda nos alimentos; o ferro de passar inteligente, que ajusta a temperatura conforme o tecido e se desliga quando deixado parado; o liquidificador versátil, que já tem um copo que depois pode ser usado para levar ou se tomar o conteúdo preparado e a vassoura robô, que faz o serviço sozinha, são alguns dos apetrechos que ajudam na limpeza e a cozinhar por conta própria, que a empresa deu ênfase no mercado brasileiro depois da PEC das domésticas.

Aspirador robô, novidade em utensílios para ajudar na limpeza por conta própria
Aspirador robô, novidade em utensílios para ajudar na limpeza por conta própria (Foto: divulgação)

“A panela de pressão elétrica, por exemplo, já existe há muito tempo, mas não era vendida no Brasil. É um mercado que evolui pela busca das pessoas por qualidade de vida e ainda deve crescer muito mais. Quando o eletrodoméstico é comprado para ser usado pela própria pessoa, as pessoas investem mais”, afirma Apolinaro.