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O setor se segura nutrido por uma população de mais de 70 milhões de cães e gatos. E as oportunidades de negócios estão aparecendo, como ocorreu para a pequena Luísa, de 10 anos.

De São Paulo -- Luísa, 10 anos, pasmem, já é uma empreendedora. A menina que adora gatos, moradora do bairro da Pompéia, na Zona Oeste de São Paulo, cuidava dos bichanos da vizinhança e logo percebeu, na atividade, a possibilidade de ganhar uns trocados. 

“Eu e minha mãe começamos cuidando dos gatos das amigas delas e da vizinha quando iam viajar. Depois eu tive a ideia de ganhar um dinheiro extra, então abrimos a CatDinda”, conta. O serviço de cuidadora de gatos já tem até página no Facebook. “Com isso, conseguimos novos clientes e gatos. E nós amamos fazer isso”, explica com empolgação.

Criado em outubro, hoje a CatDinda trabalha com a agenda cheia desde então. Cobra R$ 45,00 por dia pelo serviço de “catsitter”. “Enquanto o dono viaja, a gente dá comida, limpa a areia, brinca, escova o pelo e dá muito amor”, ela descreve, enquanto faz planos de uma viagem ao exterior, com o dinheiro da empresa que criou.

A iniciativa de Luisa é um exemplo das oportunidades de negócio no setor no Brasil, o segundo maior mercado do mundo em população de pets, de acordo com dados do IBGE: São 52,2 milhões de cães e 22,1 milhões de gatos. A maioria dos proprietários desses gatos é mulher, solteira, tem em média 40 anos, mora em apartamentos e é de classe B e C. Já os donos de cães são homens, casados, moram com mais de uma pessoa e são de classe A e B. Em comum, ainda segundo o IBGE, quase metade desses proprietários de cães e gatos veem seus animais como filhos.

Jefferson, da Petconsult: mercado brasileiro sustentado pela importância crescente dos animais domésticos nas famílias (Foto: arquivo pessoal)

Essa relevância do animal de estimação no país, aliada ao aumento de poder de consumo do brasileiro nas últimas décadas -- como a estabilidade da moeda a partir do Plano Real -- garantem oportunidades reais de negócios no setor, segundo a avaliação de Jefferson Braga, da Petconsult, uma empresa de consultoria que oferece estudo de viabilidade, reestruturação e treinamento para empreendimentos no ramo de pet.

“Muitos dos que davam restos de comida ao animal, passaram a dar alimento empacotado, quem dava uma ração de qualidade média, passou a oferecer uma ração premium ou superpremium, mais equilibradas e sem conservantes artificiais”, diz Braga.

Junto com o aumento do poder aquisitivo, os brasileiros passaram a ter uma maior consciência nos cuidados com os animais. Esse cenário de mudanças gera uma grande perspectiva de crescimento num mercado que ainda está engatinhando. E que, segundo o consultor, ainda comete muitos erros: “Eu costumo dizer que o mercado pet brasileiro é pobre, amador e incipiente, porque não é possível ainda comparar em qualidade os pontos de venda com os fabricantes. E os veterinários, por exemplo, na sua maioria, são desinteressados de assuntos relacionados à gestão”.

Mas Jefferson, contudo, afirma que nos últimos tempos o mercado notou que planejar e profissionalizar é preciso. “Muita gente me procura dizendo que quer entrar no mercado ‘porque adora cachorro’. E eu digo: você tem que gostar é de ganhar dinheiro, senão seu negócio não se sustenta! Além disso, muitos que já estão no comércio pet têm me procurado para reestruturar suas empresas”.

Cães e gatos, das duas maiores populações domésticas no país, que mobilizam comércio de alimentos e serviços como o de seguros e cuidadores
Cães e gatos, das duas maiores populações domésticas no país, que mobilizam comércio de alimentos e serviços como o de seguros e cuidadores (Foto: divulgação)

A Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação, Abinpet, estima que em 2016 o faturamento da indústria seja de R$ 19,2 bilhões, um significará um crescimento nominal de 6,7%. Embora robusto na comparação com outros setores da economia, esse crescimento é menor do que o registrado em 2015, quando o segmento faturou R$ 18 bilhões e cresceu 7,6% em relação a 2014.

“Consideramos que o mercado pet mantém certa resiliência em relação a outros setores econômicos por causa da relevância dos animais domésticos para a família brasileira. Há uma relação afetiva que coloca o animal de estimação automaticamente dentro do orçamento doméstico”.

Associação afirma ainda que quase setenta por cento desse faturamento é puxado pelo segmento de Pet Food, que hoje sofre o impacto de um movimento inverso ao de anos anteriores. “Em tempos de crise, o consumidor não corta o investimento, mas pode migrar de um produto premium para um standard. Isso mostra a importância do alimento pet no orçamento familiar”.

Nelo Marracini Neto, diretor comercial da Akron, a maior distribuidora de alimentos pet da América Latina, concorda. Ele diz que mesmo os donos de animais como pássaros, que há até pouco tempo não eram tratados com rações balanceadas, passaram a buscar alimentação mais qualificada para os bichinhos.

A Mars, empresa americana que lidera o segmento de petfood no Brasil, com 38,9% de market share (Nielsen, 2016), afirma, em nota enviada à GME, que a desaceleração na economia gerou uma redução na expectativa de crescimento, e que ainda está tentando se adequar ao novo cenário econômico. Mesmo assim, a fabricante das renomadas marcas Pedigree, Royal Canin, Whiskas e Eukanuba “não freou os seus investimentos, previstos em R$ 1 bilhão até 2020, divididos entre todos os segmentos em que atua no Brasil”. Entre esses investimentos, estão a inauguração de uma nova fábrica em Ponta Grossa, no Paraná, em 2017.

O consultor Jefferson Braga afirma que, mesmo com a crise econômica, o mercado apresenta oportunidades para novos empreendedores. “Acho que há um cenário de crescimento gigantesco para produtos voltados à alimentação saudável dos pets”, afirma.

Há também empresários apostando fortemente em negócios que vão muito além da alimentação para animais domésticos. A Health for Pet, empresa de planos de saúde para animais de estimação, está no mercado há pouco mais de dois anos e segundo o CEO da empresa, Fernando Leibel, os resultados têm sido satisfatórios.

“Já temos 22 mil vidas asseguradas e notamos um crescimento na procura por esse produto”, afirma. Os planos ofertados ao mercado custam de 60 a 250 reais por mês e oferecem, dependendo da categoria, vacinas, exames, consultas presenciais e por telefone. 

Mas antes de lançar a HFP, Leibel e os sócios tiveram o cuidado de contratar uma empresa de mercado que fez os levantamentos e pesquisas necessários e emitiu um parecer positivo sobre a ideia. Quatro meses depois estrear no mercado, em agosto de 2014, foram procurados pela Porto Seguro, e se associaram à marca. O número de clínicas credenciadas desde o lançamento dá uma ideia do sucesso do negócio, segundo Leibel. “Em 2014 eram apenas 40 clínicas credenciadas. Hoje são mais de 700”.