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Há novas e sombrias projeções sobre a substituição do trabalho humano pela inteligência artificial no futuro próximo. No Brasil, onde, segundo especialistas, a mentalidade nas corporações ainda é predominantemente "analógica", o processo tende a se acelerar.

O relatório “The Future of Jobs”, do Fórum Econômico Mundial, traça uma perspectiva assustadora para o mercado de trabalho global até 2020. A previsão é de que 7,1 milhões de empregos desaparecerão no mundo em decorrência de redundância, automação ou desintermediação. Transformações que fazem parte do que está sendo chamado de a 4ª Revolução Industrial. O mundo caminha para se tornar 100% digital e a tendência é a de que a inteligência artificial faça uma parte significativa do trabalho que hoje é realizado por pessoas.

Mas para desenvolver mais a inteligência artificial, dominar o uso e a gestão dos dados e gerar negócios, as pessoas ainda serão necessárias. Por isso, apesar de a balança continuar pendendo fortemente para o lado da redução do emprego, o mesmo relatório do Fórum Econômico Mundial prevê que cerca de 2,1 milhões de vagas serão criadas nos próximos quatro anos em áreas relacionadas à computação, matemática, arquitetura e engenharia.

Diante desses números e em um contexto no qual ainda se vive um momento de transição entre os modelos tradicionais de relação de trabalho e as múltiplas possibilidades de atuação oferecidas pela era digital, a pergunta que não quer calar é: como se preparar para essa nova indústria e manter a empregabilidade no futuro?

A consultora Vicky Block lembra que, no Brasil, o processo de transformação da mentalidade dos executivos de empresa, de analógica para digital, ainda é muito recente. “Até a década de 1990, esse país tinha uma estrutura de comando e controle. E mudança cultural leva tempo, mesmo com tecnologia”, argumenta.

A consultora Vicky Bloch: corporações privilegiam lideranças que obtém resultados financeiros rápidos, ainda que usem de autoritarismo
A consultora Vicky Bloch: corporações privilegiam lideranças que obtém resultados financeiros rápidos, ainda que usem de autoritarismo (Foto: gentileza Insper)

Vicky explica que, nesse processo de transição, prevalece o discurso corporativo de que é melhor para as organizações ter pessoas engajadas, cujas ideias são respeitadas, já testadas e se mostraram corretas no correr do tempo. Mas, na prática, a liderança nas empresas ainda é premiada pelo resultado financeiro de curto prazo, que para ser atingido via de regra leva à pressão e ao autoritarismo sobre os subordinados.

De fato, a realidade das empresas no país ainda é mais analógica do que digital. Pesquisa global da consultoria PwC aponta que apenas 9% dos tomadores de decisão brasileiros acreditam ter hoje um nível avançado de “digização” (pode soar estranho, mas o termo é esse mesmo) e integração em diferentes áreas da organização onde atuam. Enquanto isso, para muitas empresas no mundo, a indústria 4.0 não é mais uma tendência.

A “digitização”, nome que se dá ao processo pelo qual um dado analógico é digitalizado, está sendo colocada em prática a partir da combinação de serviços avançados de conectividade e automação, computação em nuvem, sensores e impressão 3D, capacidades conectadas, processos computadorizados e algoritmos inteligentes.  

Para se ter uma ideia do quanto o Brasil está atrasado nesse processo, no México, por exemplo, 40% das empresas já acreditam estar em um nível avançado de digitização. A distância dos países do Brics também é grande. Na África do Sul e Índia, esse índice é de 27% e, na China, de 40%.

Mas não é porque ainda estamos a uns bons quilômetros de distância da denominada "indústria 4.0" que os executivos não precisam se preocupar em se adequar às tendências do futuro do trabalho. A expectativa apontada pela pesquisa da PwC é de que até 2020 as empresas que atuam no país aumentem em 63% seu nível de digitização e atinjam os 72% nível que é previsto como média global no mesmo período.

Além disso, todos já sentem a mudança nos espaços de trabalho provocadas pela tecnologia. O trabalho remoto é uma realidade em muitas organizações, assim como equipes de trabalho compostas por pessoas alocadas em diferentes escritórios de uma empresa no mundo.

“Então, como indivíduo, o profissional precisa aprender a trabalhar com o outro e rapidamente estabelecer uma conexão para que se crie o ambiente de colaboração necessário para o cumprimento das metas”, sugere Vicky. “Como gestor, deve ser generoso na criação de espaços, na cessão de talentos e na compreensão das angústias, o que é fundamental para reter as pessoas na organização.”

Ricardo Antunes, da Unicamp: tecnologia pode servir também como aprimoramento da qualidade de vida no trabalho
Ricardo Antunes, da Unicamp: tecnologia pode servir também como aprimoramento da qualidade de vida no trabalho (Foto: Antoninho Perry/Ascom/Unicamp)

Mas quem foi que disse que tudo está dado como certo? Ricardo Antunes, professor de sociologia do trabalho na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), afirma que o trabalho é uma espécie de enigma da sociedade. Um pêndulo sempre oscilante. É criação, mas também servidão. 

“Ao mesmo tempo que imaginamos o padrão tecnológico nos permite ter uma sociedade em que trabalhamos menos e vivemos melhor, há jornadas de trabalho extenuantes. As jornadas de trabalho no Japão, por exemplo, aumentam. As jornadas de trabalho na Europa, em função da crise, têm aumentado”, lembra. “Com o padrão tecnológico que atingimos hoje seria possível trabalharmos 3 a 4 horas por dia, 3 a 4 dias por se semana, se não produzíssemos bens destrutivos, mas socialmente úteis. Então, o imperativo da sociedade como um todo é: que trabalho queremos?”, pergunta Antunes, sem ter a resposta.

O que fazer?

Para tentar organizar o turbilhão de mudanças em curso no mundo da produção e do trabalho e dar rumo aos profissionais e gestores, a área de inovação do Grupo DMRH compilou em seis tendências do futuro do trabalho e propôs questões para saber se as atitudes nas empresas estão alinhadas como o que já se faz nas melhores corporações. Veja:

VEJA SE SUA EMPRESA FAZ O CERTO
TENDÊNCIA O fim da hierarquia
"Para responder rapidamente às constantes e, muitas vezes, inesperadas mudanças nos negócios é preciso deslocar o centro da decisão de onde está o poder para aonde está o problema", explica Sofia Esteves, presidente do conselho do Grupo DMRH.
AUTOANÁLISE Você está incentivando as pessoas a tomar decisões com autonomia? A empresa tem uma cultura forte e clara para todos os funcionários, que permite a eles decidir pautados por ela?
O QUE ESTÁ SENDO FEITO A solução encontrada pelas organizações para se adaptar mais rapidamente tem sido investir em startups. O Itaú fez isso com o Cubo, por exemplo.
TENDÊNCIA Pilotos do caos
Não tem mais jeito. É preciso aceitar que daqui em diante não é mais possível lapidar as ideias até a perfeição. "A nova era é para quem sabe pilotar o caos. Estão abertos para testar, falhar e testar de novo", diz ela.
AUTOANÁLISE Como você lida com o erro e a experimentação na sua equipe? Há espaços para a experimentação -- ou é possível criá-los dentro da organização onde atua?
O QUE ESTÁ SENDO FEITO Espaços externos de colaboração, como fab-labs e rackathons, têm sido usados para driblar a dificuldade de encarar o erro como parte do processo e não uma falta grave.
TENDÊNCIA O fim da carteira assinada
No futuro, a formação de equipes de trabalho deve se dar como na realização de um filme. "Para produzir um novo filme, surge um novo projeto e as pessoas serão convidadas a fazer parte das equipes por suas expertises. Em um projeto você pode ser líder, em outro, liderado. Assim como um diretor também pode vir a atuar como ator", ilustra Sofia.
AUTOANÁLISE Você tem se preocupado em oferecer novos desafios para as pessoas com quem trabalha? Tem olhado para as necessidades individuais dos membros de sua equipe e pensado a respeito?
O QUE ESTÁ SENDO FEITO Há empresas que já adotam essa configuração de trabalho em projetos pontuais e um número cada vez maior de pessoas procurando outros caminhos para se sentir mais realizadas, sem ter que "bater ponto."
TENDÊNCIA Muito além do óbvio
Mais do que raciocínio lógico, os desafios da sociedade atual demandam criatividade. “Apesar da sobrecarga de trabalho e a pressão por resultados a que a maioria das pessoas está sujeita, principalmente por causa do cenário econômico, é preciso buscar experiências diferentes e soluções e aprendizados em cenários totalmente distintos e desconectados do seu problema”, afirma.
AUTOANÁLISE Tem buscado experiências diferentes para ampliar seu repertório? Já tentou buscar soluções e aprendizados em cenários totalmente distintos e desconectados do seu problema? Como anda a diversidade na empresa? Qual foi a última vez que você fez algo pela primeira vez?
O QUE ESTÁ SENDO FEITO Os "Master in Fine Arts Programs", ministrados em diversas universidades pelo mundo, tendem a ser os novos MBAs, complementares à formação dos executivos.
TENDÊNCIA Pensamento ecossistêmico
O valor dos recursos deslocou-se da posse para a experiência, do individual para o coletivo e da centralização para o compartilhamento. "Uma nova economia – colaborativa, cooperativa e criativa – está despontando. Algo que não traz benefícios para todos os envolvidos, não é bom para ninguém. “As empresas que não valorizarem as relações "ganha-ganha" estão com os dias contados", alerta.
AUTOANÁLISE Já pensou em convidar diferentes stakeholders para co-criar soluções? Quando pensa em uma solução para um desafio, costuma se perguntar se aquela proposta é realmente boa e justa para todos os envolvidos?
O QUE ESTÁ SENDO FEITO O Sistema B é uma iniciativa global que certifica empresas que se comprometem a desenhar estratégias, mensurar e entregar apenas resultados financeiros. Estará cada vez mais no radar de consumidores e futuros colaboradores.
TENDÊNCIA A verdade sem maquiagem
Entregar apenas um simples produto ou serviço já não é mais suficiente. As empresas precisam criar experiências de impacto e fazer o cliente se sentir parte do seu contexto. "O discurso precisa estar muito alinhado com a prática dentro e fora da empresa. Ser claro, empático e verdadeiro", conclui.
AUTOANÁLISE Você pensa ou entrega soluções que geram conexão de verdade? Ao pensar em um produto, serviço ou dilema na gestão de suas equipes, o quanto você realmente "calça o sapato" dos seus clientes, consumidores e colaboradores?
O QUE ESTÁ SENDO FEITO As novas redes sociais, como o Snapchat e o Periscope, estão disseminando uma comunicação mais espontânea, sem "frescura". Menos plastificada e mais sincera, que revela os bastidores.