CRESCE O NEGÓCIO DAS BOAS INTENÇÕES

Serviços

Estudo prevê que investimento em empresas criadas para suprir demandas das classes C,D e E chegará a R$ 50 bilhões. A Policlínica Granato (foto) é exemplo dessas iniciativas.

De São Paulo -- Promover o desenvolvimento social e gerar lucro. Esse é o objetivo do empreendedorismo social, que estão crescendo rápido no Brasil, apesar da crise. A princípio, pode parecer algo contraditório, mas se observarmos por outro ângulo fica mais claro. Os negócios sociais, negócios de impacto social, empresas sociais – ainda não há um consenso em relação a conceituação desse tipo de empreendimento – surgem a partir de uma demanda de mercado, assim como os negócios tradicionais. A diferença é que se busca oferecer produtos e serviços a preços baixos, voltados à população de baixa renda. Mas o mecanismo de estratégia e gestão é o mesmo de um negócio tradicional. E deve ser assim, pois não se trata de filantropia.

“Nós estamos falando de negócios que são rentáveis, mas que existem com um propósito. Você não precisa trabalhar apenas para ganhar dinheiro ou só pelo social. Tem cada vez mais pessoas por aí conseguindo fazer os dois”, afirma Pedro Henrique Vitoriano. Ele e Fabio Serconek idealizaram o projeto Brasil27, que percorreu o país identificando e estudando esse fenômeno diferente de empreendedorismo. 

Considerando que grande parte da população não tem acesso adequado a serviços financeiros, de saúde, de educação e habitação, é fácil concluir que o segmento de negócios sociais no Brasil é bastante promissor. E, por isso, tem atraído investidores.

Uma projeção feita pela Força Tarefa Brasileira de Finanças em parceira com a empresa de consultoria Deloitte indica que o investimento em negócios de impacto social deve quadruplicar em seis anos, passando de R$ 13 bilhões (em 2014) para R$ 50 bilhões (em 2020). Pessoas jurídicas vão contribuir com R$ 41,9 bilhões, governo 4,1 bilhões e organismos multilaterais de crédito com 2,5 bilhões. Os organismos nacionais de fomento, fundações e associações e pessoas físicas somarão R$ 1,5 bilhão. Há, ainda, R$ 440 milhões em fundos de impacto social, que é o que tem maior potencial para crescer.

A "moeda" do Banco Palmas: financiamento em condições acessíveis em Fortaleza
A "moeda" do Banco Palmas: financiamento em condições acessíveis em Fortaleza (Foto: divulgação)

O estudo mostra ainda que as áreas de atuação em que o empreendedorismo social mais cresce no Brasil são saúde e educação. Junto com microfinanças e habitação, também são as áreas que mais devem atrair capital investidor.

Um exemplo de negócio social é a Policlínica Granato, no Rio, que oferece atendimento médico, odontológico, exames laboratoriais e de imagem por um preço que a população que não tem plano de saúde pode pagar. “A gente tem hoje no Brasil 70% de pessoas que não têm plano de saúde e o SUS não consegue dar conta do volume de atendimento. Temos pacientes também que têm plano de saúde, mas que precisam fazer um exame com urgência e não conseguem marcar. Aqui ele paga R$ 36 e sai com o Raio X feito, por exemplo”, afirma Paulo Granato, sócio administrador da clínica popular.

A rede de policlínicas tem unidades na Rocinha, Tijuca, Madureira e Carioca Shopping. Oferece consultas que podem ser até 70% mais baratas se comparado a preços de atendimento particular.

Segundo Paulo Granato, as consultas custam R$ 62 em média. Granato garante que há todo tipo de atendimento médico e de exames complementares para suprir a necessidade de recém-nascidos a idosos, que podem fazer todos os exames e procedimentos necessários em um único lugar. “É muito legal você ver que ajuda as pessoas, perceber que está atendendo uma pessoa que não teria outra alternativa. Isso faz bem”, diz o empreendedor.

No segmento de microfinanças, assim como Muhammad Yunus, o Nobel da Paz que é um ícone do empreendedorismo social no mundo por ter criado o Grameen Bank (conhecido também como o Banco do Povo), o cearence Joaquim Melo criou o Banco Palmas.

Trata-se de um banco comunitário do Conjunto Palmeira, um bairro da periferia de Fortaleza (CE) com 32 mil moradores. Por meio da criação de uma moeda própria, a Palma, e de pequenos empréstimos, o banco fez a economia do bairro crescer e criou novas oportunidades de vida para os moradores.

“Como população gastava toda a sua renda, mesmo sendo pequena, fora da comunidade, o bairro não tinha chance de criar um tecido econômico local que pudesse gerar renda, emprego e dignidade para as pessoas”, explica Ansier Ansorena, diretor de crédito e inovação do Banco Palmas. 

Sala de espera de unidade da Clínica Granato: preços cerca de 70% abaixo do mercado
Sala de espera de unidade da Clínica Granato: preços até 70% abaixo do mercado (Foto: divulgação)

Os produtos da instituição financeira são mais baratos e há a possibilidade de se criar nos produtos com a participação da população local para atender suas necessidades. Muitas pessoas já fazem a compra local usando sem usar mais as palmas. “Então, as pessoas aprenderam que comprando na própria comunidade elas geram desenvolvimento e melhoram sua qualidade de vida”, afirma Joaquim Melo, fundador Banco do Palmas.

Para ele, o que ele criou foi um novo modelo de negócio. “Não é só um banco, que atende as pessoas em seu dia a dia, que é um negócio. Mas também é um movimento porque ele pretende ser uma nova forma de organizar o sistema financeiro”, defende.

O desafio dos empreendedores sociais para criar e manter os seus negócios não é menor do que o do empreendedor tradicional. E pode até ser considerado maior. Primeiro, porque precisam criar um modelo de produção de produtos e prestação de serviço que ainda não existe e torná-lo grande em escala para atender ao maior número de pessoas possível. Além disso, é preciso mensurar e prestar contas aos investidores dos impactos sociais, o que não é tarefa fácil.

Existe uma metodologia internacional chamada Global Impact Investing Rating System (GIIRS), mas ela ainda não se adequa a todos os tipos de empreendimentos – já que são inovadores e inéditos. Mas os empreendedores sociais não se amedrontam com isso.

“Quando a gente perguntava para eles: por que você decidiu abrir um negócio social, por que você não abriu um negócio comum? Geralmente a resposta era: porque não tinha como não fazer isso. Eu tinha que atuar nesse problema. Era maior do que eu”, conta Fabio Serconek, do Brasil27.