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Com redução dos valores de benefícios e aumento da idade para se aposentar pela Previdência Social, a partir da reforma do governo, cresce a procura pelos planos de previdência privada. Mas nem sempre vale a pena.

De São Paulo - Se há no Brasil um negócio que neste momento vai de vento em popa, são os chamados planos de previdência privada, em boa parte movidos pela ventania provocada pelo anúncio das regras da nova reforma da Previdência Social. De acordo com a Fenaprevi, Federação Nacional de Previdência Privada e Vida, essa modalidade de investimento recebeu em novembro último aportes de mais de R$ 11 bilhões, um volume 26% superior ao do mesmo mês de 2015.

Já são, no total, quase 13 bilhões brasileiros recorrendo às instituições financeiras e se programando para tentar obter, no futuro, uma renda melhor do que a previdência pública poderá lhes oferecer. Destes, 9,7 milhões contrataram planos individuais e os demais, 3,1 milhões, aderiram a planos empresariais.

Consultores ouvidos pela GME afirmam que a procura por investimentos voltados para a aposentadoria privada é uma tendência natural das sociedades em todo o mundo – já que a previdência social no país tem mudado suas regras periodicamente e impede qualquer planejamento e previsibilidade.

Nos Estados Unidos, por exemplo, esse mercado tem o dobro do tamanho do volume de fundos de investimento financeiros comuns. O Brasil, por outro lado, ainda engatinha nesse setor, mas promete dar um salto, diante da reforma proposta pelo governo, que, entre outras mudanças, retarda a aposentadoria principalmente para trabalhadores do setor privado e reduz na prática o valor do benefício de quem não tem os privilégios do setor público.

Christiano Ehler, superintendente de investimentos do Banco Santander, diz que “o brasileiro começa a despertar para a necessidade da poupança de longo prazo, mas ainda não temos essa cultura, como lá fora”. Segundo Ehler, nos últimos trinta anos, as pessoas almejavam ter carro, telefone, televisão. À medida que essas conquistas foram sendo realizadas, as metas foram atualizadas, e a preocupação passou a ser com a casa própria.

 

Ehlers, do Santander: brasileiro começa a se preocupar com a poupança de longo prazo
Ehlers, do Santander: brasileiro começa a se preocupar com a poupança de longo prazo (Foto: divulgação Santander)

“A verdade é que tudo isso ficou mais acessível e, com essa evolução, as pessoas começam a se preocupar cada vez mais com o futuro, contratando planos de saúde e de previdência privada”.

Nesse novo cenário, torna-se cada vez mais relevante a figura do consultor financeiro, um especialista que pode ajudar a planejar onde e como investir para ter um bom retorno, já que a grande maioria das pessoas ainda sofre diante de siglas como PGBL e VGBL, as duas modalidades de investimento em previdência privada mais comuns

SOPA DE LETRAS: VGBL OU PGBL

Quem já pesquisou sobre planos de previdência privada com certeza já “topou’ com duas siglas: VGBL e PGBL. Em ambos, o investidor passa por duas fases: o período de investimento, que são os anos em que você se dedica a guardar dinheiro, e o período de benefício, que é quando você decide começar a usufruir da quantia aplicada. VGBL significa “Vida Gerador de Benefício Livre” e o PGBL, “Plano Gerador de Benefício Livre” e a principal diferença entre eles é a tributação. No PGBL, você pode deduzir o valor das contribuições da sua base de cálculo do Imposto de Renda, com limite de 12% de sua renda bruta anual, abatendo do valor do imposto a pagar ou aumentar a restituição. O PGBL só é vantajoso para quem faz a declaração completa do IR. Para quem faz a declaração simplificada ou é isento de pagar Imposto de renda, o ideal é o VGBL, que também é indicado para quem atingiu o limite de dedução previsto para a previdência complementar (12% da renda bruta).
Segundo a Fenaprevi, é importante destacar que, para ambas as modalidades de planos, não há cobrança de imposto de renda a cada seis meses sobre os rendimentos obtidos, como ocorre em alguns tipos de aplicações. “Outra característica do PGBL e VGBL é a possibilidade de o poupador optar pelo regime de alíquotas progressivas ou de alíquotas regressivas do imposto de renda. Nesse último caso, que quanto mais tempo os recursos permanecerem aplicados, menor será a alíquota do Imposto de Renda incidente.”

Para o planejador financeiro independente, Rogério Bastos, “o sistema público de previdência está falido no mundo inteiro e o Brasil não é exceção”. Mesmo assim, recomenda cautela, e que as pessoas esperem para ver o que vai acontecer com as novas regras, antes de correr para o banco. Ele frisa que quando se trata de produtos financeiros de previdência, todo cuidado é pouco, já que o horizonte a ser ponderado é de décadas e a variedade de produtos diferentes no mercado é enorme.

Outra dica importante: olhar para o tamanho e a solidez da instituição à qual você vai confiar o seu investimento, afinal, é preciso ter alguma segurança de que seu dinheiro não vai evaporar devido a uma eventual quebra do banco ou por má gestão, por exemplo.

Fuja das taxas altas

Bastos sugere uma regra básica inicial aos que se interessam pela complementação privada da aposentadoria: quanto maiores as taxas de administração cobradas, pior o produto.

“Tanto no investimento comum como na previdência privada, o investidor tem direito a pagar taxas de administração menores na medida em que aumenta o volume investido, mas a maioria não sabe disso”, avalia.

Segundo o especialista, o mercado cobra taxas de 1% a 4% ao ano para um investimento de R$ 10 mil, e “essa diferença é praticamente todo juro real que tem lá dentro”, ou seja, o banco ganha muito e você, quase nada.

Simuladores não confiáveis

Segundo o especialista, os simuladores oferecidos na internet pelas instituições não são confiáveis. “O simulador te dá uma ideia do que você vai receber. É um “chute” bem-educado do que parece ser o melhor cenário, mas não tem como garantir o que vai acontecer de fato no futuro”, explica Bastos, que ressalta que as incertezas da economia futura têm papel fundamental nessa falta de parâmetros.

O advogado e economista, Humberto Veiga, autor do livro “Tranquilidade Financeira”, é ainda mais incisivo. “Pergunte a qualquer banco se ele fornece um papel timbrado com os dados da simulação de previdência privada e se ele assina embaixo do prognóstico da simulação. Nenhum vai fazer isso, porque ninguém na face da terra sabe qual vai ser a taxa de juros daqui a três anos”.

Defensor árduo da previdência pública, o advogado acha que a maioria dos investidores em VGBL ou PGBL está comprando algo que eles não têm a menor ideia do que seja.

Previdência Social ainda pode ser vantajosa

Segundo Veiga, nos planos abertos da previdência privada de hoje você só sabe quanto vai ter de contribuir mensalmente e o rendimento futuro é só uma estimativa. Desde o início dos anos 2000 as instituições privadas deixaram de oferecer planos de benefício definido para ofertarem apenas o de contribuição definida.

Humberto Veiga também levanta outra polêmica, ao afirmar que a grande maioria da população brasileira, 95%, não precisa de previdência complementar, já que, com o salário médio de R$ 2 mil por trabalhador, basta a manutenção da previdência pública para manter, ao se aposentar, o mesmo padrão de vida. “Você pode aplicar dinheiro para o futuro em outra modalidade, e não necessariamente na previdência privada”, defende ele.

Rogério Bastos, de certa forma, complementa esse raciocínio: “Não acho que o sistema público vai acabar de uma hora para outra, mas é importante ter um plano B. Pode ser uma poupança ou outra forma de investimento paralelo. Ter uma reserva não atrapalha ninguém, pelo contrário”, brinca.

Os especialistas ressaltam ainda alguns outros senões, que merecem atenção antes de ingressar na Previdência Privada:

Depois dos 50, não vale a pena

Segundo cálculos médios para o mercado brasileiro, quem pretende se aposentar aos 60 anos com renda mensal de R$ 5 mil, terá que efetuar pagamento mensal de R$ 175 se começar a contribuir aos 20 anos de idade. Para obter a mesma renda, alguém com 30 anos terá que fazer depósitos de R$ 398. E precisará depositar R$ 974 ao mês se começar a investir aos 40. Quem tem mais de 50 anos precisará de depósito tão elevado durante 10 anos ininterruptos que não valerá a pena fazer a opção. (Cálculos pelo site da Mongeral)

Taxa de saída

Outro inconveniente dos planos de previdência privada em relação a aplicações de renda fixa ou pós-fixados tradicionais, por exemplo, é que esses planos normalmente impõem uma carência mínima para a retirada do saldo antecipadamente.

Baixa rentabilidade

Além disso, a rentabilidade de muitos desses fundos de previdência pode ficar abaixo do que é pago pelos fundos financeiros tradicionais. Nesse caso, valerá mais a pena, seguir a recomendação de especialistas que indicam aplicações não previdenciárias para obter o mesmo objetivo futuro, já que haverá maior flexibilidade nos valores dos depósitos mensais e caso seja necessário resgatar o saldo antecipadamente para uma emergência.

Declaração completa do IR

Outro inconveniente é que, para obter a vantagem sobre o Imposto de Renda pago, utilizando-se a modalidade do PGBL, será preciso optar sempre pela declaração completa do IR. Isso limita também o poupador, que, em determinados anos, teria como vantajosa a declaração simplificada de seus rendimentos.