Serviços

Sistema de hospedagem que permite alugar de quartos a palacetes pela internet em qualquer do planeta cresce rápido no Brasil e atrai hóspedes e proprietários de imóveis 

São Paulo -- Discretamente, pequenas e grandes cidades brasileiras começam a ter sua economia afetada pelo Airbnb, sistema de hospedagem nascido em 2008. Era naquele início uma startup como tantas outras em São Francisco, na Califórnia. Nove anos depois, é serviço acessível e útil em 34 mil cidades de 191 países. A plataforma, que encontra a cada dia mais usuários por aqui, facilita a comunicação direta entre turistas e donos de imóveis e permite que uma locação temporária seja realizada e paga com facilidade e segurança por meio de um site ou aplicativo.

Como o Uber, ele aproxima a oferta da demanda, mas, em vez de carros, o que ele oferece são quartos e casas ociosos de todos os tipos, tamanhos e preços para aluguel durante curtos períodos. Empresa de locação temporária de imóveis pela internet é onda que revoluciona mercado de hospedagem no mundo inteiro.

Para muitos turistas, que querem ter uma rotina doméstica nas cidades que visitam, assim como para locatários interessados em rentabilizar seus imóveis, o modelo pode ser uma solução perfeita em termos de custo e conforto na estadia. Mas, da mesma forma como o Uber enfrenta a ira de muitos taxistas, o Airbnb também tem seus adversários. A indústria hoteleira o considera um concorrente difuso e ameaçador.

Estudo encomendado pelo Airbnb para a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), da USP, mostra que o serviço não para de crescer e já virou um dos casos mais evoluídos da denominada economia compartilhada. Dados preliminares divulgados pelo diretor do instituto, Eduardo Haddad, no seminário “Digital + Local: transformações na cidades”, realizado, em março, no Centro de Convenções Tomie Ohtake, em São Paulo, indicam que, ao longo do ano passado, o Rio de Janeiro recebeu 360 mil hóspedes por meio da plataforma e a capital paulista, outros 101 mil visitantes. Na primeira cidade, o Airbnb movimentou US$ 437 milhões e, na segunda, US$ 40 milhões.

Segundo o estudo da Fipe, o impacto econômico no PIB dos municípios foi de US$ 228 milhões. “A plataforma do Airbnb veio para quebrar paradigmas”, afirmou, no evento, a especialista em direito do consumidor e ex-secretária nacional do Consumidor, Juliana Pereira,. “Ela tem um apelo de experiência que permite conhecer novas culturas, pessoas, lugares e costumes.”

Peça publicitária do Airbnb, que revoluciona o mercado de hospedagem também no Brasil (Foto: divulgação)

Ao longo do ano passado, a plataforma registrou 1,006 milhão de hospedagens, um crescimento de 140% em relação ao período anterior. No Rio, o uso do serviço foi acelerado e popularizado pelo fato do Airbnb ser um dos patrocinadores dos Jogos Olímpicos e fornecedor oficial de hospedagem alternativa. Nas vésperas do evento, quando a capacidade hoteleira estava quase toda ocupada e os preços das diárias, nas alturas, a cidade contava com 35 mil anúncios na plataforma distribuídos em 80 bairros, o que a colocava, em escala propagandística, atrás apenas de Paris, Nova Iorque e Londres entre as mais procuradas do mundo.

Em relação a 2015, o número de espaços anunciados no Rio, assim como em todo Brasil, dobrou, segundo dados da empresa. O detalhe é que houve um grande crescimento das reservas por parte de turistas brasileiros. Se na Copa do Mundo, dois anos antes, somente 6% das reservas eram feitas por hóspedes domésticos, na Rio 2016 esse percentual aumentou para 44%. No período dos Jogos, foram confirmadas reservas de mais de 55 mil hóspedes originários de 110 países.

O estudo da Fipe concluiu que a renda das hospedagens do Airbnb teve um efeito multiplicador superior a cinco na economia das cidades pesquisadas, no ano passado. Para cada dólar gasto nas duas cidades com hospedagem na plataforma, mais 4 dólares foram adicionados por conta de outros desembolsos, como transporte e alimentação. Durante o Carnaval deste ano, os quartos e casas alugadas em todo o país via Airbnb receberam cerca de 100 mil pessoas. Em São Paulo, o número de hospedagens praticamente triplicou em relação ao mesmo feriado, em 2016.

No Rio, o crescimento foi de 66%, em Recife de 97% e, em Salvador, de 50%. A renda anual média de um anfitrião da plataforma no Brasil é de 5,5 mil reais, que contribuem fortemente para a cobertura dos custos fixos e de manutenção do imóvel. “É um momento disruptivo da economia e da tecnologia”, afirmou o professor de diretor comercial da USP e ex-presidente do Cade, Vinícius Marques de Carvalho. “E o mercado tradicional vai resistir aos novos entrantes.”

Em algumas cidades, o Airbnb tem enfrentado problemas com o lobby dos hotéis, que veem suas receitas caindo por causa da ampliação do seu uso, e restrições de órgãos reguladores que acusam a plataforma de não seguir as regras locais de locação e de transferir imóveis que deveriam estar destinados à moradia permanente para a locação temporária, encarecendo os aluguéis das pessoas que vivem no lugar.

Em Barcelona, a empresa já foi multada duas vezes, primeiro em 30 mil euros e, depois, em 600 mil euros, por causa desse possível efeito inflacionário sobre as locações. Nos dois casos, o Airbnb recorreu. Em Londres e Amsterdã, o serviço se antecipou a possíveis conflitos e limitou as estadias, respectivamente, a 90 dias e 60 dias, para não concorrer com as locações de longo prazo. Já em Nova York, foi aprovada uma lei que proíbe a oferta de apartamentos para temporada por períodos inferiores a 30 dias, o que preserva a indústria hoteleira.