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Os espaços informais para empreendedores, como o Google Campus (foto), surgem nas grandes cidades e aglutinam ideias de negócios antes separados pela imensidão urbana

De São Paulo - São 4 horas de uma tarde ensolarada de agosto e sento no terraço do sexto andar do Google Campus, de frente para o rua Oscar Porto. O lugar está ocupado por gente de todos os estilos e idades e etnias variadas e tem mais homens do que mulheres. Fala-se baixo e a maioria parece estar concentrada, executando alguma atividade importante.

Consigo uma mesa lateral bem situada, com uma tomada por perto, e crio uma estação para meus gadgets. Conecto-me na impecável rede wi-fi, gratuita para os cadastrados no espaço e dou o primeiro gole no meu cafezinho admirando a paisagem da região do Paraíso.

Tenho um projeto de mídia que quero desenvolver e estou, de fato, em busca de potenciais parceiros de negócios. E o ambiente descrito é o Google Campus, espaço aberto neste ano pelo Google, em São Paulo, para abrigar startups de tecnologia, na posição de pequeno empreendedor.

Abro o aplicativo de networking Beer or Coffee, que acabei de baixar e serve para aproximar pessoas com interesses comuns, e digo que estou por perto e disponível para um bate papo. No meu perfil no aplicativo digo quem sou e o que pretendo. Em menos de cinco segundos, recebo uma mensagem de boas vindas dos responsáveis pelo aplicativo. E demora outros cinco segundos para chegarem as primeiras propostas para encontros no café do quinto andar, onde também há uma área de jogos e uma varanda no fundo.

Depois de mais de uma hora e duas garrafas de água, havia conversado com três pessoas, um engenheiro médico que tem um site de serviços de manutenção de equipamentos hospitalares, uma psicóloga que trabalha com gestão de pessoas e desenvolve um projeto na favela de Paraisópolis e uma especialista em marketing digital, que se propunha a fazer meu estúdio de mídia deslanchar.

Entrada do Cubo, espaço de co-working criado por Itaú e Redpoint
Entrada do Cubo, espaço de co-working criado por Itaú e Redpoint (Foto: divulgação)

Conversas agradáveis, produtivas, que, mesmo sem qualquer efeito prático imediato, me deram boas ideias e que mostram que não estou sozinho e que os canais de micronegócios digitais estão abertos na cidade.

Em minhas jornadas de bicicleta em busca de capital semente para meu projeto constato que o ambientes de trabalho colaborativo estão se multiplicando em São Paulo. Todo mundo pode encontrar com certa facilidade gente com interesses comuns e pensar em fazer negócios. O Beer or Coffee, por exemplo conecta outros espaços de trabalho de co-working em vários pontos da cidade para abrigar empreendedores inquietos e startups nascentes.

Passando pela Rua Lisboa, nas imediações da praça Benedito Calixto, no bairro de Pinheiros, há o Plug, espaço aconchegante com centenas de estações de trabalho e sala de reuniões, com ótimos bicicletários, que também tem filial no Itaim. Na rua Fradique Coutinho, na Vila Madalena, está o Coffee Lab, outro ponto tradicional para primeiros contatos de negócios.

Na mesma rua, em frente à Livraria da Vila, fica o Ekoa Café. Quinze minutos antes de chegar em qualquer um deles, dá para começar a marcar encontros para bate-papo pelo aplicativo.

Romero Rodrigues, do Redpoint: momento ideal para a criação de novas empresas de tecnologia
Romero Rodrigues, do Redpoint: momento ideal para a criação de novas empresas de tecnologia (Foto: divulgação)

“O mercado nunca esteve tão bom para as startups”, afirma o empresário Romero Rodrigues, fundador do site de comparação de preços Buscapé e sócio do fundo de investimentos Redpoint Ventures, com capital de R$ 130 milhões e investimentos em 25 empresas da internet no Brasil. “E é fundamental aproximar as pessoas que querem empreender para desenvolver nosso ecossistema de inovação”.  

Para facilitar essas aproximações, o Redpoint, em parceria com o Banco Itaú, inaugurou, em maio do ano passado, um grande espaço de co-working com cinco mil metros quadrados na Vila Olímpia que já abriga mais de 50 startups e tem espaço para 250 empreendedores residentes, que pagam aluguel pelo uso do espaço.

O projeto do Cubo é, justamente, apoiar aqueles micro e pequenos empresários da economia digital que precisam de incentivo para tirar suas ideias do papel, oferecendo infra-estrutura de qualidade, rede de relacionamento e educação empreendedora. As startups mais bem sucedidas têm chances de entrar no pipeline de investimentos da Redpoint.

Aproveitar boas ideias e estimular projetos de internet são as mesmas motivações que movem o Google ao abrir seus campi pelo mundo. O de São Paulo é o sexto, criado depois de  Londres, Varsóvia, Tel Aviv, Seul e Madri. Todos eles funcionam como ambientes de colaboração profissional e laboratórios de empreendorismo.

O aplicativo de trânsito Waze, por exemplo, foi desenvolvido usando a estrutura do campus Tel Aviv, antes de se tornar uma empresa do Google. Em São Paulo, os três primeiros andares do prédio têm espaços de co-working destinados para abrigar empresários selecionados, que podem usar suas estações de trabalho 24 horas por dia e sete dias por semana, recebendo ajuda de especialistas.

Quer dizer, você pode chegar discretamente com sua bicicleta, se intalar por ali no quinto ou no sexto andar, abertos para visitantes, começar a fazer contatos, acompanhar palestras e cursos para melhorar sua formação e, se seu projeto prosperar, pode entrar no programa de residentes, que o ajudará a acelerar sua startup.

É um roteiro que parecia fantasioso no Brasil, há algum tempo, por falta de ambientes inspiradores e de capital de risco para projetos nascentes e que se tornou, agora, perfeitamente verossímil. E milhares de jovens empresários estão colhendo os frutos dessa transformação. O mundo dos negócios digitais está se abrindo para todos.