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O problema é maior nas cidades menores do interior, que têm internet ainda mais precária. Situação só deve melhorar a partir de 2018, quando a economia reagir, diz Ana Carolina Boyabjian, da Lafis.

A banda larga no Brasil está bem atrás no ranking de velocidade de conexão entre todos os países do mundo. De acordo com dados do primeiro trimestre do ano, divulgados pela Akamai, ocupamos a 95ª posição. O preço pago por esse serviço, apesar de estar caindo, ainda é superior ao cobrado em países desenvolvidos, já ponderadas as capacidades de compra da população de cada país.

Além disso, a qualidade também fica aquém das metas anuais estipuladas pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Pelo menos 70% das metas para 2016 ainda não foram cumpridas. A realidade da baixa qualidade se reflete no volume das reclamações, que cresceram 50% entre 2014 e 2015.

Sobre o assunto, as operadoras preferem não se manifestar individualmente e respondem por meio do Sindicato Nacional da Empresas de Telefonia e de Serviços Móvel Celular e Pessoal (SindiTelebrasil). “As telecomunicações no país não são fator limitador de negócios. Muito pelo contrário, a regra para este setor é que as empresas estão muito bem atendidas, com preços e qualidade alinhados às suas necessidades”, afirmam.

De acordo com a pesquisa TIC Empresas divulgada este ano, o acesso à internet está universalizado nas pequenas, médio e grandes empresas brasileiras e a velocidade do link contratado vem aumentando. A proporção de empresas de todos os portes que afirmaram contratar velocidades acima de 10 Mbps passou de 21%, em 2012, para 40%, em 2015. O que não quer dizer que as operadoras estejam efetivamente entregando essa velocidade.

O SindiTelebrasil argumenta que quando a velocidade média é mensurada pela oferta da operadora, ela é maior. Quando não são descartados o impacto de sistemas wi-fi de baixa qualidade e o compartilhamento entre diversos usuários, a velocidade registrada é menor.

A referência de preço usada pelo SindiTelebrasil é de um estudo de 2014, do Instituto de Estudios Peruanos, que coloca a banda larga fixa e móvel no Brasil entre as três mais baratas da América Latina. Já uma pesquisa realizada em nove países e divulgada este ano pela startup Melhor Escolha, mostra que a banda larga brasileira é a segunda mais cara, considerando o comprometimento da renda das pessoas com serviço, que é de 6,1%. Na Alemanha e Coreia do Sul esse percentual é de 0,8% e nos Estados Unidos, de 0,9%.

Samuel Rodrigues, do IDC, diz que cidades do interior são as que mais sofrem com a baixa qualidade da banda larga
Samuel Rodrigues, do IDC, diz que cidades do interior são as que mais sofrem com a baixa qualidade da banda larga (Foto: divulgação)

O preço, no entanto, não é o principal problema a ser enfrentado. “Na realidade, o Brasil está dividido em dois. O das grandes cidades, com economia forte e redes de banda larga de alta velocidade. E o das cidades com menos de 500 mil habitantes, onde há problemas de rede e a banda larga de alta velocidade não chega”, explica Samuel Rodrigues, analista sênior de telecomunicações da IDC Brasil. Ele conta que há pequenos provedores construindo redes fora dos centros urbanos, só que eles enfrentam dificuldade de conseguir financiamento, o que limita seus investimentos.

Por isso, os analistas e o SindiTelebrasil defendem que o governo precisa adotar medidas de incentivo e investir no desenvolvimento da infraestrutura de banda larga. Recurso para isso existe. O dinheiro deveria vir do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicação (Fust) e do Fundo de Fiscalização das Telecomunicações (Fistel), mas desde a privatização do Sistema Telebras não foi devidamente administrado e aplicado pela Anatel. Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) constatou que, de R$ 101 bilhões arrecadados desde 1997, apenas 6% foram usados corretamente.

Eduardo Tude, presidente da consultoria Teleco, lembra que o governo também pode adotar medidas que facilitem a entrada de novos prestadores de serviço no mercado, que hoje é dominado por três grandes grupos. Dados de junho deste ano, da IDC Brasil, mostram eles são: Telecom Américas (Claro, Net, Embratel, Star One), com 31,7%; Telefônica (Vivo), com 28,4% e Oi, com 24,4%. “Há uma série de requisitos a serem cumpridos, que tornam o ingresso de novos prestadores de serviço no sistema burocrático e custoso e freiam os investidores nacionais e internacionais”, diz Tude.

Eduardo Tude, da Teleco: maior concorrência entre concessionárias ajudaria em qualidade e preço
Eduardo Tude, da Teleco: maior concorrência entre concessionárias ajudaria em qualidade e preço (Foto: divulgação)

A mudança do modelo de concessão para o de autorização também pode influenciar positivamente o cenário de investimentos das operadoras em banda larga. Isso porque a atuação das empresas que se tornaram concessionárias na privatização – Telefônica, Oi, Algar e Sercomtel – está vinculada à obrigação de expandir a rede de telefonia fixa e de orelhões em todo o país. A regra não faz mais sentido, já que o uso do celular substituiu o uso dos telefones públicos e, para parte da população, também do telefone fixo.

Nesse sentido há perspectivas mais concretas. A proposta já passou pela Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria, Comércio e Serviços da Câmara. Agora, está em análise na Comissão de Constituição e Justiça. Se aprovada, seguirá para a aprovação final no Senado. Assim, os recursos que são hoje obrigatoriamente destinados pelas operadoras à telefonia fixa, poderão ser direcionados para a expansão da banda larga. Uma das empresas mais beneficiadas seria a Oi, que teria mais facilidade para equilibrar suas contas.

Diante de tudo isso, os especialistas não acreditam que a situação da banda larga no Brasil deve mudar no curto prazo. Para Ana Carolina Boyabjian, analista do setor de telecom e tecnologia da Lafis, "o avanço da banda larga no Brasil só deve ocorrer mesmo a partir de 2018, quando a expectativa é de que a economia volte a ganhar fôlego". As redes de telefonia móvel também tendem a ser impulsionadas em 2018, quando a faixa de frequência de 700 MHz estará totalmente liberada do sinal analógico de TV para o 4G.