TI & Telecom

Os investimentos de apoiadoras de pequenas empresas de tecnologia, como a Inseed, de Junqueira, cresceram 39% no país em 2015

De São Paulo - Projetos bem elaborados e dificilmente copiáveis, empreendedores bem formados e de nível global, mais acesso a canais de investimento e realismo para a obtenção de capital: o mercado de venture capital brasileiro amadureceu e se tornou acessível para empresas de todos os portes. Investidores constatam uma evolução geral no sistema de inovação e mais facilidade para detectar negócios diferentes e promissores. Se há até pouco tempo só os grandes obtinham capital de risco, agora empresas pequenas e médias e até startups com receita mínima, desde que tenham potencial e uma boa fórmula de crescimento, podem conseguir dinheiro para se consolidar e se desenvolver a longo prazo.

Há neste momento, pelo menos, 60 companhias nacionais e estrangeiras gestoras de capital de risco atentas a oportunidades no país. E os investimentos em tecnologia da informação e na economia digital estão em alta. “O mercado está mais maduro, com empresas bem preparadas e gestores experientes”, afirma Gustavo Junqueira, diretor da Inseed, gestora do fundo Criatec 3, considerado o maior fundo de investimento para empresas em estágio inicial do país. “É esse empreendedorismo para criação de coisas de alto nível que cria riqueza.”

A oferta de capital de risco tem crescido nos últimos dois anos, em parte por causa da desvalorização do real, que faz com que os ativos fiquem mais baratos no país. Estudo da Associação Brasileira de Private Equity & Venture Capital (ABVCAP) e da consultoria KPMG revelou que, em 2015, esses investimentos aumentaram 39% e atingiram R$ 18,5 bilhões, recorde de expansão, desde a criação da pesquisa, em 2011. Outra boa notícia é que esse dinheiro está chegando em empresas de todos os tamanhos, tanto em empreendimentos maduros, que buscam recursos e conhecimento de gestão para deslancharem, como em projetos nascentes da internet.

A Anjos do Brasil, por exemplo, entidade sem fins lucrativos que fomenta o investimento anjo e apoia o empreendedorismo de inovação ampliou seus investimentos de risco em startups brasileiras, no ano passado, em 14% e desembolsou 784 milhões de reais. A tendência, neste ano, segue sendo de expansão dos desembolsos.

Fundos de venture capital, como o Criatec 3, lançado, em fevereiro, pelo BNDES e pela Inseed Investimentos, ou como o RedPoint Ventures têm ampliado suas apostas no mercado, sempre com visão de longo prazo. Com capital de R$ 220 milhões e duração de dez anos, o Criatec 3, nova versão do bem-sucedido Criatec, aporta valores que variam entre R$ 1,5 milhão e R$ 10 milhões aos seus beneficiários. Seus alvos são micro e pequenas empresas com faturamento líquido de até R$ 12 milhões e barreira competitiva baseada em inovação.

“Analisamos dezenas de projetos e os primeiros três ou quatro investimentos, dos quais dois na área de TI, serão aprovados até o fim do ano”, afirma Junqueira. “E o que a gente tem buscado e encontrado agora, com mais facilidade, são empresas baseadas em algoritmos complexos, com conhecimento profundo em suas áreas e capazes de criar um ativo dificilmente replicável em menos de dois anos de esforços e gastos.”

No caso do Redpoint, fundo ativo desde 2012, que tem investimentos de R$ 130 milhões, o alvo são startups de base tecnológica, mas também aquelas focadas no mercado, em particular no comércio eletrônico. ”Nosso negócio é investir em grandes empresas enquanto elas ainda são pequenas”, comenta Romero Rodrigues, fundador do site de comparação de preços Buscapé e um dos gestores da Redpoint.

Rodrigues vê os negócios de venture capital “bombando”, neste momento. O fundo investe até o limite de 25% de participação no capital e não almeja posição de controle, mas apenas um assento no Conselho de Administração. Pode interessar-se por empresas que faturam de zero a dois milhões de reais por mês. As que não geram receita expressiva, podem ter muitos usuários e visibilidade, o que é também um grande atrativo. Sua perspectiva é de longo prazo, com retorno de dez anos. A Redpoint tem, hoje, 25 empresas no portfolio, das quais onze foram integradas em 2015, o dobro da média histórica anual, que é de cinco ou seis investimentos.

Uma das startups que está debaixo do guarda-chuva da Redpoint é a Olist, plataforma que conecta pequenos varejistas espalhados pelo país aos marketplaces de grandes e-commerces, como o Wal-mart.com, Submarino, Shoptime e Americanas.com. Em agosto, a empresa concluiu sua segunda rodada de investimentos e recebeu aportes de capital da Redpoint, da 500 Startups e de investidores individuais que totalizaram 835 mil reais.

A Olist, que tem Romero Rodrigues como membro do conselho, cuida de todos os serviços de venda do seu cliente varejista, desde a precificação, até a gestão do estoque, a entrega e a cobrança, com a garantia de máxima eficiência operacional e de incremento imediato das vendas. Possui mil clientes, mas cresce num ritmo de 20% ao mês e a expectativa é de superar dois mil lojistas até dezembro e alcançar 10 mil no final de 2017.

Tiago Dalvi, da Olist: crescimento de 15% ao ano na crise, com apoio de investidores de startups
Tiago Dalvi, da Olist: crescimento de 15% ao ano na crise, com apoio de investidores de startups (Foto: divulgação)

“O comércio eletrônico se mostra resiliente e muitas lojinhas de rua perceberam que podem vender mais na internet”, diz Tiago Dalvi, CEO da Olist. “Algumas, inclusive, têm fechado as portas e passado a fazer apenas vendas online com a nossa plataforma”. Segundo a E-bit, empresa especializada em informações no setor, as vendas online tiveram crescimento nominal de 15,3%, em 2015, enquanto as vendas físicas caíram 8,4%.

Outra gestora de investimentos orientada para produtos e serviços digitais que vê seus negócios prosperarem é a A5 Internet Investment, administradora de dois fundos de tecnologia, o W7 e o Cedro, orientado para o agronegócio na região Centro-Oeste. O W7, criado em 2012, investe em onze empresas, das quais sete foram agregadas de três anos para cá. Seu horizonte de retorno é de dez anos e, embora predomine uma participação minoritária, eventualmente a A5 pode assumir uma posição de controle na companha.

“Buscamos empresas menores, principalmente de mídia, softwares e comércio eletrônico com faturamento de até R$ 16 milhões por ano e que tenham boas ideias”, afirma Paulo Humberg, CEO da A5. Seu último investimento foi o site Home Shave Club, anunciado como o primeiro clube de assinaturas de lâminas de barbear do Brasil. Paga-se a partir de 8 reais por mês para receber as lâminas em casa.

O fundo Cedro, recém-lançado, deve aprovar seus três primeiros projetos, todos na área de TI, nos próximos meses. “Vejo muitas oportunidades se abrindo e negócios muito interessantes”, diz. “Os empreendedores brasileiros que hoje passam pelo crivo do capital de risco têm qualidade mundial.”