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Cerca de 700 mil domicílios deixaram o serviço no ano passado. Mas oferta de pacotes combinados de TV, internet e telefone diminuiu preços e clientes começam a voltar, diz Simões, da ABTA.

De São Paulo - O mercado de TV por assinatura viu sua base de clientes diminuir nos últimos dois anos. Entre 2010 e 2014 o número de assinante saltou de 9,8 milhões para 19,6 milhões. No primeiro trimestre deste ano, o total de assinantes era de 18,9 milhões, perda de cerca de 700 mil clientes. “Desde 2015, o setor, que até 2014 crescia 10% ao ano, vem caindo mensalmente”, observa Ana Carolina Boyabjian, analista de telecom e tecnologia da Lafis. 

Segundo Samuel Rodrigues, analista sênior de telecomunicações da IDC Brasil, a crise econômica levou principalmente os assinantes com menor renda e que acessavam o sistema via satélite a cancelarem o serviço. “Por isso, acredito que com a recuperação da economia, essa base voltará a crescer”, diz. 

Samuel Rodrigues, do IDC: perda principalmente entre assinantes de renda menor
Samuel Rodrigues, do IDC: perda principalmente entre assinantes de renda menor (Foto: divulgação)

A reação ainda é bem tímida, mas já aparece. No segundo semestre de 2016 o número de acessos de TV paga subiu parou de cair e subiu de 18,911 milhões para 18,928 milhões, uma recuperação de 17 mil assinantes. “A queda vem ficando menos expressiva mês a mês. O que cria um cenário muito melhor do que tínhamos”, afirma Oscar Simões, presidente da Associação Brasileira de Televisão por Assinatura (ABTA). De acordo com ele, o setor encolheu, mas teve perdas menores do que a média da economia do país. 

A maior fatia de clientes é da Telecom Américas – Claro, Net, Embratel e Blue – (52,7%), seguida da Sky (28,4%), Telefônica – Vivo e GVT – (9,3%) e Oi (6,5%). “Nós tivemos algumas fusões, o que acabou criando grandes grupos de telecom, todos eles ofertando pacotes quad play – telefone fixo, banda larga, tv por assinatura e celular. E isso não vai mais mudar”, afirma Eduardo Tude, presidente da Teleco. 

Simões, da ABTA, explica que as fusões e a venda de diferentes serviços em um pacote trouxeram ganhos na oferta de produtos e tornaram a operação das empresas mais competitiva. Isso porque alguns custos são reduzidos com a emissão de uma única fatura e a gestão de um único call center, por exemplo. “É um movimento que está acontecendo no mundo inteiro e deve se estabelecer. E, com mais competitividade, quem ganha é o cliente.” 

Ele acredita que essa é a melhor forma de regular o setor. “Não adianta criar regras. Elas acabando criando barreiras. A maior penalidade para as operadoras é perder um cliente. O custo de aquisição é alto, inclui compra de equipamentos, investimento em publicidade, força de vendas... Então, se a pessoa não ficar, é prejuízo certo”, ressalta o presidente da ABTA. 

A oferta de pacotes ainda tem bastante espaço para crescer no Brasil. Hoje, a maior parte das pessoas, 60%, recebe o sinal via satélite. A transmissão via cabo, que é a que torna possível a oferta de serviços combinados de telefonia e tv, ainda está presente apenas nos centros urbanos – onde as operadoras investem mais em infraestrutura. 

E aqui, assim como no caso da banda larga, nos deparamos com o velho problema da falta de infraestrutura de telecomunicações no país. É preciso que o governo use recursos de fundos, como o de universalização de serviços de telecomunicação (Fust), para viabilizar o cabeamento em regiões menos adensadas. Isso deixou de ser feito desde a privatização do Sistema Telebras.

Outro obstáculo que o crescimento da contratação de TV por assinatura enfrenta é a alta carga tributária. Outra velha conhecida de empresas de todos os setores no Brasil, que encarece os produtos e serviços. “No ano passado, 15 Estados aumentaram o ICMS em cerca de 10% para 15%”, ressalta Simões, da ABTA. A isso junta-se ainda a crise econômica e a perda do poder de compra das pessoas. 

Ana Carolina, da Lafis, lembra também da concorrência que a TV paga tem enfrentado com serviços de streaming, como o Netflix. “São mais baratos, não pagam impostos, não são regulamentados e estão tomando mercado”, comenta. 

Mas enquanto a economia estiver desacelerada, não há a expectativa de que sejam feitos investimentos e adotadas medidas de incentivo por parte do governo. “Ninguém conseguiu aplicar o que devia quando a economia estava crescendo. Agora, estamos vivendo um momento muito delicado. É muito difícil o governo fazer qualquer coisa. A prioridade é fechar as contas”, conclui o presidente da ABTA.