TI & Telecom

A conexão full time na palma da mão, que modificou a maneira do mundo interagir com a informação, faz mal se usada em excesso. Especialistas falam em dependência parecida com a de drogas.

De São Paulo -- A médica veterinária Poliana Benatos, 30, divide sua vida entre “antes e depois” do smartphone. Há cinco anos, quando o primeiro aparelhinho (que já fazia muito mais que ligações telefônicas) entrou em sua vida, foi amor à primeira vista. Ela começou a participar de redes sociais, logo aderiu ao Whats App e aos inúmeros aplicativos que foram criados para facilitar nossa vida. Confessa que se viciou em tanta comodidade e diversão. "Eu vou tomar banho, levo o celular. Vou tomar café da manhã, levo o celular. Posso estar 'apertada' para ir ao banheiro, mas mesmo assim eu dou um jeito de pegar o aparelhinho antes", conta, rindo.

"Possivelmente o smartphone é a tecnologia que mais impactou a vida das pessoas neste século. Ele não apenas alterou a forma de comunicação, com as redes sociais, mas também na organização das cidades, com aplicativos como o Waze e Uber e na economia. Ele é uma janela para o mundo com uma conexão constante. Ter contato com as pessoas de forma constante é recompensante, mas ao mesmo tempo pode ser angustiante", afirma Eduardo Pellanda, pós-doutor em Comunicação Social pelo MIT, Massachusetts Institute of Technology (MIT), professor da PUC-RS e coordenador do Laboratório de Pesquisa em Mobilidade e Convergência Midiática.

Eduardo Pellanda, do MIT: contato full-time pelo celular pode se tornar angustiante
Eduardo Pellanda, do MIT: contato full-time pelo celular pode se tornar angustiante (Foto: divulgação)

Essa angústia a que o professor Pellanda se refere é sentida, não por Poliana, mas sim pelas pessoas que convivem com ela. Os colegas de trabalho, com quem sai todos os dias para visitar clientes, por exemplo, afirmam que a veterinária vive em um mundo paralelo. "Dia desses um vendedor que estava comigo dentro do carro se incomodou por eu estar sempre de olho no aparelho. Eu estava no Whats App conversando com outros vendedores e ele reclamou: 'você conversa mais comigo quando não está comigo'!” 

Mãe, namorado e filho também não gostam do vício de Poliana, que tem tentado deixar o smartphone um pouco de lado, para o bem das relações não virtuais. "No fim de semana procuro me desconectar. Tenho feito o 'exercício' de deixar o aparelho em casa quando saio, para dar mais atenção às pessoas. É muito difícil e é triste que eu tenha chegado a esse ponto, eu sei", confessa. "Mas não acho que estou totalmente fora da realidade, porque o mundo todo se relaciona assim hoje", relativiza.

Segundo o psicólogo Cristiano Nabuco, coordenador do Grupo de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria do HC, Hospital das Clínicas de São Paulo, pouca gente se dá conta que a tecnologia é o novo vício do século 21. "Alguns estudos mostram já existe dependência tecnológica", afirma. Segundo ele, pessoas viciadas em tecnologia apresentam sintomas de abstinência quando afastadas do celular, da mesma forma que os viciados em jogos de azar, álcool e drogas. 

"Existem as dependências químicas e a dependência comportamental.  Muito embora nesse segundo grupo não haja a ingestão de uma substância externa, os efeitos observados são muito semelhantes em que usa de forma patológica a internet e celular", completa Nabuco.

Cristiano Nabuco, do HC de São Paulo: estudos sobre uso patológico e dependência do celular
Cristiano Nabuco, do HC de São Paulo: estudos sobre uso patológico e dependência do celular (Foto: divulgação)

O resultado desse exagero já tem chegado aos consultórios do Instituto de Psiquiatria do HC. Crianças com dificuldades de concentração e com problemas de relacionamento - já que muitas escolhem mergulhar no mundo virtual, deixando de lado o mundo real.  Pessoas que não conseguem mais viver sem estar conectadas e têm dificuldade em focar exclusivamente em algo, porque o celular sempre apita ou vibra, indicando que algo interessante (ou não) está acontecendo no mundo virtual.

"Grande parte das informações que nos chegam (pelo smartphone) são absolutamente irrelevantes. Essa alternância de operação mental de ler um livro e parar para ver o celular, ouvir o professor e checar o celular, debruçar sobre um trabalho e voltar para o celular, começa a criar um padrão no qual progressivamente o cérebro vai perdendo a capacidade de se aprofundar”, explica o coordenador do Grupo de Dependências Tecnológicas do HC.

Nabuco exemplifica com problema com os qual lida habitualmente como professor. “Hoje, muitas vezes, quando nós vamos dar aula para os jovens na universidade, eles não conseguem mais se debruçar e se aprofundar sobre textos mais densos. Perderam a capacidade de concentração. O manuseio contínuo das redes sociais, das buscas, da música e da fotografia, à ‘caça’ ao Pokemon, tudo isso cria uma poluição que compromete profundamente a lógica e a capacidade de raciocínio", completa. 

Um estudo realizado na Espanha pelo Centro de Estudos Especializados em Transtornos de Ansiedade afirma que mais da metade dos usuários de telefones sofrem da chamada "nomofobia" - sigla que vem do inglês “no-mobile-phone-phobia” quando estão impossibilitados de usar seus aparelhos. Entre os sintomas, taquicardia, sudorese, pensamentos obsessivos, irritação e dor de cabeça. 

Eduardo Pellanda afirma que o grande desafio é saber dosar o papel da tecnologia em nossas vidas. “Precisamos estar constantemente nos policiando para saber como entendemos os nossos limites, já que tecnologia se desenvolve em uma velocidade muito maior que os nossos costumes sociais.”

Hilário diz que 99% de seus relacionamentos são feitos com celular
Hilário diz que 99% de seus relacionamentos são feitos com celular (Foto: arquivo pessoal)

O analista de mídias sociais Hilário Júnior, 32 anos, não sofre de nenhum desses sintomas, talvez por não se desconectar nunca. Ele lembra que o primeiro acesso à internet foi em 1996, ainda na casa dos pais, no interior de Pernambuco. Ele diz que deve tudo à internet. “Além da minha profissão devo a ela 99% dos meus relacionamentos pessoais e amorosos”, conta.

Hilário se interessa por todas as novidades que a tecnologia proporciona e, por isso, foi um dos primeiros brasileiros a baixar o joguinho de realidade aumentada Pokémon Go. Também foi o primeiro a ter o smartphone roubado na rua, enquanto caçava os bichinhos. 

"Eu tinha acabado de comprar um celular novo, umas cinco da tarde. Quando eram cinco e meia, estava indo para casa de ônibus quando vi, no Twitter, que a Niantic (desenvolvedora do Pokémon Go) tinha disponibilizado o jogo para ser baixado no Brasil. Fiz o download e, no minuto seguinte, marquei de ir jogar com um amigo. Horas depois estávamos na Avenida Paulista caçando Pokémon", conta.

E acabou vítima da "gangue da bicicleta", famosa por praticar roubos de celular na região da Avenida Paulista, em São Paulo, levou o aparelho novinho em folha de Hilário. Mas quem é hard user de tecnologia não corre o risco de ficar desconectado. O analista de mídias sociais tinha seguro do aparelho e, logo depois, já estava com um aparelho novinho nas mãos, caçando Pokémon.