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Em meio a escândalos sexuais e de preconceito, Travis Kalanick, CEO da Uber, se afasta indefinitivamente, alegando problemas familiares. Mas, a verdade nua é que a empresa passa por uma crise de liderança.

 

 De São Paulo - O CEO da Uber Technologies Inc., Travis Kalanick, comunicou por email nesta Terça-feira, 13/06, que ele planeja tirar uma licença e não divulgou uma data de retorno. A empresa será administrada por um comitê de gerenciamento, pois está atravessando uma onda de escândalos.

Segundo a Bloomberg, o que se sabe é que após a sua eventual volta, o Conselho de Administração da empresa deve tirá-lo de alguns deveres e nomear um independente “co-CEO” que limite sua influência, de acordo com uma cópia antecipada de um relatório preparado pelo conselho.

A empresa divulgou os resultados de uma investigação realizada por Eric Holder, o ex-procurador-geral dos EUA, contratado pela Uber para analisar alegações de assédio, discriminação e uma cultura agressiva de relacionamentos interpessoais. Como resultado, Holder fez 47 recomendações que incluem: a criação de um comitê de supervisão do conselho, reescrevendo os valores culturais da Uber, a redução do consumo de álcool nos eventos de trabalho e proibindo as relações íntimas entre funcionários e seus chefes.

Em reunião extraordinária do Conselho, ocorrida no domingo, 11/06, o relatório de Holder foi aprovado por unanimidade e as recomendações serão implementadas imediatamente. Uma das primeiras providências foi expulsar Emil Michael, chefe de negócios da Uber, que tinha um comportamento que não estava compatível com as novas diretrizes de conduta profissional da empresa.  

O conselho está empenhado em diminuir o papel de Kalanick, assim que ele voltar, dando algumas de suas responsabilidades de CEO para uma eventual nova contratação de diretor de operações - um cargo que a Uber ainda não conseguiu preencher. Este novo diretor "atuaria como um parceiro integral do CEO, se concentrando nas operações do dia-a-dia, na aplicação da nova cultura corporativa dentro da Uber", recomenda o relatório.

A Uber perdeu ou demitiu grande parte de sua equipe de gerenciamento nos últimos meses, com a vinda à tona dos escândalos. Com mais de 14 000 colaboradores, a Uber não tem um vice-presidente, ou figura equivalente. Isto mudou na semana passada, quando Frances Frei, vindo da Harvard Business School, foi contratado como vice-presidente sênior de liderança e estratégia. Outra aquisição importante foi a vinda Wan Ling Martello, atualmente na Nestlé. Ele atuará como diretor independente, uma espécie de conselheiro não ligado a cadeia de comando. 

Além dos problemas na Uber, Kalanick vem sofrendo um drama pessoal. No final de maio, seus pais  se envolveram em um acidente de barco em Fresno, na Califórnia. Sua mãe Bonnie, morreu em decorrência do incidente. Já o seu pai Donald, ficou gravemente ferido e vem se recuperando.

Susan Fowler (foto instagram)

A crise foi desencadeada por uma publicação de um blog em 19 de fevereiro pela ex-engenheira de software da Uber, Susan Fowler. Ela alegou que seu ex-gerente havia feito propostas de relações sexuais, que foram negadas, mas diante da insistência, Fowler o denunciou ao departamento de RH da Uber. A resposta não poderia ser mais desapontante para ela. O RH informou que não o puniria porque ele era um funcionário de alto-desempenho. Além de sua acusação de assédio sexual, Fowler relatou outras indignidades do dia-a-dia que as mulheres enfrentavam na empresa. 

Kalanick também está vinculado diretamente a um dos maiores escândalos da empresa. Pelo menos meia dúzia de membros da equipe de recrutamento da Uber deixou a empresa após priorizarem iniciativas de contratação baseadas em diversidade. Kalanick resistiu a esta abertura. Segundo o Conselho, ele não está preenchendo suficientemente o papel de liderança e admitem que a empresa foi moldada à sua imagem, que está riscada no presente momento.