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Sem admitir sua responsabilidade pessoal pelos muitos escândalos que atolaram a Uber Technologies em caos e desconfiança, Travis Kalanick renunciou ao cargo de CEO hoje (21/06), Mesmo com os preparativos do IPO indo de vento em popa.

 As questões que ficam são como a empresa chegou há um nível de descontrole tão anormal e por quê os diversos sistemas de governança corporativa não conseguiram frear a derrocada de diversos executivos que formavam a liderança da Uber.

Uma reposta provável é que Kalanick só conseguiu sobreviver como executivo-chefe por tanto tempo porque os investidores do Silicon Valley costumam apoiar a ideia de que os fundadores são visionários de seus negócios e devem ser autorizados a operar com suas próprias regras. Às vezes, essa filosofia funciona, que é o caso de Mark Zuckerberg, founder e CEO do Facebook. Às vezes, como no caso da Uber, é uma receita para o desastre em relações públicas e perda de credibilidade.

Alguns analistas afirmam: se a Uber fosse uma empresa de capital aberto, Kalanick teria sido afastado logo nos primeiros indícios de problemas tão graves, comissões internas tratariam da questão e as medidas de contenção seriam aplicadas para evitar uma crise de imagem.

A pressão para o pedido de demissão de Kalanick veio dos fundos de investimentos de private equity (fundos de participação) que possuem cerca de 40% de ações com direito a voto do Uber. O fundo Benchmark, o maior investidor deste bloco de capitalistas de risco, liderou a revolta e, segundo o The Guardian, as justificativas para o afastamento definitivo de Kalanick eram claros e não poderiam ser mais adiados. Havia sinais de que o dano à marca da Uber estava afetando seus negócios em todo o mundo.

A Uber mantém em diversos países, inclusive no Brasil, verdadeiras batalhas com os órgãos regulamentadores governamentais para ajustar o seu pleno funcionamento. Muitas destas disputas estão em âmbito judicial e, certamente, os problemas de credibilidade na liderança da empresa não ajudariam a defesa dos seus interesses.

Além dos problemas com a regulamentação, seus rivais avançam onde a Uber dominava sozinha. Nos EUA, a Lyft, está ganhando terreno em todos os estados americanos, causando uma guerra de preços indesejável, mas que beneficia os usuários. Aqui no Brasil, a Cabify, anunciou em abril deste ano um investimento de US$ 200 milhões para ampliar a presença da companhia nas praças onde já atua, como São Paulo e o Rio de Janeiro, e também iniciar, ou incrementar, a expansão para outras cidades, como Brasília e capitais do Nordeste, que ainda não têm o serviço.

Kalanick está bilionário e desempregado - segundo a Forbes, sua riqueza está avaliada em US$ 6 bilhões. Além do dinheiro, ele detém uma significativa participação na empresa que lhe dá direto a votos que podem determinar o destino da Uber. Tanto poder, deixa qualquer investidor com a pulga atrás da orelha em saber se a renúncia de Kalanick é para valer ou apenas uma cortina de fumaça para evitar a desvalorização das ações da empresa que está preparando seu IPO (Initial Public Offer).

Segundo Alasdair Warren, chefe do banco corporativo e de investimento da EMEA no Deutsche Bank, a perspectiva de executar o IPO permanece ainda "extremamente boa", mesmo com a renúncia de Travis Kalanick.