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A moeda digital mais popular já se valorizou mais de 200% neste ano, mas a possibilidade de uso em operações criminosas gera incerteza

 

De São Paulo - 2016 está sendo um ano favorável para o Bitcoin, a moeda virtual não regulada por governos ou banco centrais, que atingiu seu maior valor dos últimos anos, acima hoje dos US$ 2.750 (em 01/08). Uma das características da moeda é sua volatilidade, afetada pela adesão de empresas e países a esse inovador meio de pagamento. Os chineses e japoneses têm sido permeáveis ao uso da moeda digital e isso influenciou muito na sua valorização no primeiro semestre. Outro fator que faz a moeda ficar mais valiosa é sua aceitação para pagamentos de compras em grandes companhias. Há alguns anos, a Microsoft, por exemplo, passou a aceitá-la na aquisição de aplicativos, músicas e games. Em outubro do ano passado, o governo japonês, decidiu acabar com o imposto sobre as vendas de bitcoins, que eram de 8%, o que a afetou positivamente.

Em meados de maio, porém, diante do maior ataque mundial de hackers de todos os tempos, o bitcoin ficou em cheque e foi diretamente associado a operações criminosas. Para devolver dados roubados de usuários, os hackers pediam bitcoins, que só circulam na internet e não têm sua propriedade facilmente atestada, o que os tornam meio provável para o tráfico de dinheiro sem deixar rastros. No Brasil, algumas investigações indicaram que o Primeiro Comando da Capital (PCC) passou a utilizar a moeda que não pode ser rastreada nem confiscada para esconder dinheiro sujo. O sistema de proteção da moeda se dá por um sofisticado código criptográfico.

Satoshi Nakamoto, especialista em criptografia (foto:divulgação)

A moeda virtual tem seu valor estabelecido pelos movimentos de oferta e demanda e segue um modelo de livre mercado descentralizado. Os primeiros bitcoins foram emitidos em 2008, por iniciativa de um engenheiro e especialista em criptografia japonês chamado Satoshi Nakamoto, uma figura misteriosa que, apesar de evidências, nega qualquer vínculo com a moeda e vive, hoje, discretamente nos Estados Unidos. Quando apresentou sua ideia de dinheiro virtual e emitiu os primeiros 50 bitcoins em um evento de tecnologia no Japão, Nakamoto estabeleceu um limite de 21 milhões de bitcoins para ser atingido até 2140. As moedas vão sendo emitidas na medida em que suas transações são certificadas. Todas as transações são incluídas em um registro público, controlado de maneira descentralizada.

Quem faz isso são as “mineradoras”, empresas que funcionam como auditoras da moeda e detêm supercomputadores capazes de verificar a autenticidade de cada negócio realizado. São milhares delas, algumas muito grandes e outras pequenas. Elas analisam confirmam se a transação foi feita com um bitcoin realmente existente e identificam como a moeda mudou de mãos. Por conta disso, recebem uma taxa de 5 centavos de dólar e uma recompensa, que tende a diminuir ao longo do tempo. Essa recompensa, que equivale a 12,5 bitcoins, é paga com a emissão certificada de novos bitcoins. Atualmente, há 17 milhões de bitcoins no mercado e 90% das transações ocorrem na Ásia. A maior mineradora do mundo está na China, com15% do total de negócios. Equipada com máquinas de alta potência, ela se situa ao lado de uma usina hidrelétrica, para não ter problemas com falta de energia.

“Na China, por causa da desvalorização recente da moeda local, muitos investidores colocaram seu dinheiro nos bitcoins para poder tirá-lo do país”, afirma Gustavo Schiavon, dono da Foxbit, maior corretora brasileira de bitcoins, que, só em 2016, movimentou 250 milhões de reais.

A Foxbit é responsável por metade das transações locais com a moeda. “A maior parte dos nossos clientes pensa no bitcoin para ter ganhos financeiros, como se comprasse uma ação, mas já há um uso expressivo para fazer pagamentos de mercadorias e serviços”, completa. Segundo ele, apesar das crises eventuais, o bitcoin tem um protocolo muito seguro e auditado constantemente por milhões de pessoas que atestam as transações. Schiavon explica que é possível fraudar uma mineradora específica ou uma corretora, mas jamais a rede orgânica que sustenta a moeda. “Se houver fraude, ela será rapidamente detectada”, diz.

A volatilidade da moeda pode ser verificada pelo acompanhamento de seu valor nos últimos três anos. Em dezembro de 2013, cada bitcoin era negociado por US$ 1 mil e um ano e meio depois ela caiu para cerca de US$ 200. Voltou a subir no final de 2016, em janeiro alcançou US$ 842 e, no início de fevereiro, atingiu o pico de US$ 1.080. Trata-se de uma variação acentuada de 28% em menos de um mês, um patamar muito alto de volatilidade. No mesmo período, o iene, considerada uma moeda física volátil, teve uma variação de poucos centavos de dólar em relação ao real. Uma oscilação de 10% no dólar pode ser considerada uma situação de crise.

Analistas avaliam que investir no bitcoin pode ser bom e trazer ganhos de curto prazo, mas também pode causar perdas estrondosas. A atração que o bitcoin que exerce sobre organizações criminosas, por exemplo, pode afetar a credibilidade da moeda de uma hora para outra. Mesmo assim, quem investiu na moeda digital, nos últimos tempos, se deu bem. Atualmente, apesar das incerteza e temores, a cotação da moeda no Brasil está acima de US$ 2.750 (01/08), uma valorização de mais de 200% no ano.