COMO CAPTAR COM SUCESSO NA BOLSA

TI & Telecom

Empresas nacionais de Tecnologia de TI aproveitaram a maior flexibilidade nas regras da Bovespa. Mas, em troca, tiveram que aprofundar transparência na gestão, como a Totvs, de Laércio Cosentino.

De São Paulo - Desde que a gigante dos softwares de gestão Totvs fez a pioneira oferta inicial de ações (IPO), na Bovespa, há dez anos, um caminho amplo surgiu para as empresas nacionais de TI captarem recursos no mercado. De 2006 para cá, mais nove empresas do setor abriram o capital ou avançam rápido nesse sentido graças às facilidades criadas pelo sistema de listagem Bovespa Mais, idealizado para companhias de médio porte que querem entrar na bolsa de forma gradual, sem emitir ações.

Não foram mais IPOs por causa da crise econômica e porque atingir as metas de governança corporativa exigidas nessas operações é difícil. A postulante precisa ser muito transparente e estar disposta a se expor cada vez mais.

“Abrir o capital significa que você vai pedir dinheiro para um monte de gente e, por isso, você tem que mostrar tudo que você faz”, afirma Dennis Herszkowicz, vice-presidente financeiro e de relações com o investidor da Linx, empresa que fornece software de gestão para o setor de varejo. “A governança é uma obrigação, é como uma pessoa ser educada.”

Dennis Herszkowicz, da Linx, de software de gestão: transparência é obrigatória antes de pedir dinheiro ao mercado
Dennis Herszkowicz, da Linx, de software de gestão: transparência é obrigatória antes de pedir dinheiro ao mercado (Foto: divulgação)

A Linx serve de exemplo bem acabado do que uma empresa deve fazer para ingressar na bolsa e prosperar. Quando abriu seu capital, em 2013, já era auditada pela KPMG e tinha conselho de administração há dez anos. Além disso, demonstrava uma cultura que Herszkowicz define como “inclusiva”, que compartilha sua estratégia internamente e estimula os funcionários com maior potencial a se tornarem sócios.

Ele próprio, por exemplo, chegou na Linx, em 2003, e foi convidado para a sociedade dois anos depois. Outro passo para se tornar mais transparente foi a busca de aquisições, que traziam novos talentos e aumentavam sua exposição no mercado. Finalmente, ela foi buscar investidores externos, sempre rigorosos no acompanhamento dos seus negócios.

O primeiro investidor foi o BNDESpar, que, na virada de 2009 para 2010, colocou R$ 50 milhões na empresa. Em maio de 2011, veio uma segunda rodada de investimentos, com a entrada do fundo de private equity General Atlantic, com 130 milhões de reais, e mais um aporte de 35 milhões de reais do BNDESpar.

O IPO foi, afinal, a cereja do bolo. Só impulsionou um novo salto evolutivo de governança. A empresa aumentou o número de membros independentes no seu conselho de administração, que tem cinco integrantes. Subiu de um para dois, o que significa que está acima da exigência de um terço da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Criou, também, dois comitês, um de remuneração e outro de auditoria. O de remuneração não tem qualquer atuação executiva e responde ao conselho. Discute a política salarial, ganhos de longo prazo e a política de bônus para os executivos. O comitê de auditoria tem atribuições mais específicas, como a pré-aprovação das demonstrações de balanço, além de interação com o auditor externo.

Além disso, a empresa garante total proteção ao minoritário, que é tratado com isonomia. A Linx não tem grupo de controle e seu free float, percentual de ações destinado a livre negociação, é de 70%.

“Do ponto de vista formal, temos todo o arsenal montado para garantir uma boa governança”, afirma Herszkowicz. “O desafio agora é sustentar isso diariamente e fazer com que todo novo gestor que venha para o negócio entronize a nossa cultura corporativa.”

Além da Linx e da Totvs, as outras empresas nacionais de TI listadas no Novo Mercado da Bovespa, e que tiveram que fazer a lição de casa, são a Positivo, a IdeiasNet, a Itautec, a CSU Cardsystem e a Sênior Solution. Na Bovespa Mais, estão duas empresas de softwares, a BRQ Soluções em Informática e a Quality, e uma varejista online de material de construção, a BR Home Centers.

A Sênior ingressou na Bovespa Mais, em 2012, e, no ano seguinte, migrou para o Novo Mercado. A Bovespa Mais foi criada em 2005, mas sua primeira listagem só ocorreu três anos depois. Atualmente, agrupa 35 empresas.

Foi concebida com uma incubadora de empresas médias em preparação para o IPO que lhes garantirá recursos para o crescimento no futuro. O ponto fraco que, em geral, precisa ser desenvolvido em empresas que aspiram entrar no Novo Mercado é, justamente, a governança corporativa.

“O caso da Totvs é sui generis”, afirma Laércio Cosentino, fundador e CEO da empresa, que faturou 2,2 bilhões de reais no ano passado. “Temos dez anos de capital aberto, mas dezesseis de cultura corporativa”. Ele lembra que a empresa não optou pelo IPO para seguir uma tendência, mas por que evoluiu naturalmente para isso e se preparou durante sete anos, desde 1999, para se relacionar com o mercado de forma transparente.

Criou um Conselho, que hoje tem nove membros, dos quais oito são externos, implantou comitês e foi a primeira empresa a ganhar o prêmio do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), em 2005, antes do IPO, quando ainda se chamava Microsiga.

Segundo Cosentino, a governança gera valor e fortalece a imagem da empresa e seu aprimoramento deve anteceder qualquer tentativa de conseguir recursos para expansão na bolsa. Além disso, a situação econômica precisa ser favorável, o que não se verifica neste momento. “Há um crise econômica e política que atinge todos os setores e, por isso, as empresas estão mais precavidas”, afirma.