TI & Telecom

O varejo foi o setor que aderiu primeiro às "clouds", mas até empresas financeiras apostam no serviço que promete baixo custo e segurança, como defende Echeverria, da Microsoft

De São Paulo - A computação em nuvem, que tem viabilizado o surgimento de negócios inovadores, como Uber e Netflix, cresce e começa a atingir maturidade no Brasil. É o que afirma Pietro Delai, gerente de pesquisa e consultoria da IDC Brasil. Em um cenário de desaceleração econômica, a ‘cloud’ cresce a dois dígitos por ano. Em 2015, chegou aos 20%, enquanto o mercado de TI como um todo ficou em um dígito. “E a tendência é que continue assim”, explica Delai.

Esse crescimento deve se sustentar, segundo os especialistas no setor, porque, em comparação com o cenário global, a adoção da tecnologia de terceirização de dados e conteúdo pelas empresas brasileiras foi tardia. Além disso, a própria crise econômica favorece a contratação do serviço, que é cobrado de acordo com seu uso.

Assim, os custos de TI se tornam variáveis, crescem dependendo do volume de negócios, e o gestor da área poderá se ocupar mais das informações estratégicas que a tecnologia pode fornecer do que com a infraestrutura para viabilizá-la.

 Pietro Delai: armazenamento de dados em nuvem amadurece no Brasil (Foto: divulgação)

Pietro Delai, da IDG: armazenamento em nuvem chegou tarde e vive amadurecimento no Brasil (Foto: divulgação)

Mas esse cenário não significa o fim do servidor próprio. Os especialistas e a maior parte das empresas que atuam nesse mercado acreditam que a arquitetura de computação em nuvem híbrida, com parte dos dados rodando em uma nuvem privada e parte em uma nuvem pública, é o que terá mais adesão.

A "cloud" chegou para ficar porque ela permite que os dados e a capacidade de computação estejam disponíveis sob demanda e possam ser acessados de qualquer lugar via internet. Essa conectividade traz possibilidades quase infinitas a partir do cruzamento e interpretação de dados feitos por aplicações de "big data" e de "machine learning", entre outras.

Quando uma empresa decide usar uma "cloud" privada, ela está optando por contratar o serviço de computação em nuvem, mas determinando que seus dados rodem apenas em servidores próprios ou com dedicação exclusiva. Essa é uma escolha quando a organização precisa saber – por exigências legais, por exemplo – exatamente onde estão as suas informações ou prefere mantê-las “em casa” para ter um controle maior sobre elas.

Já na nuvem pública, os dados podem estar rodando em qualquer um dos servidores dos prestadores desse serviço pelo mundo. Mesmo assim, ela é considerada bastante segura e tem como vantagem uma capacidade de escala imediata e sem limitação a um custo baixo. No caso de um dos servidores cair, a informação passa a ser computada em fração de segundos por outro da rede. É a escolha para processar informações que não são críticas, como as de softwares de gestão. A arquitetura hibrida conecta a nuvem privada e a pública, de modo que o usuário não percebe quando está usando uma ou outra.   

A ideia, segundo André Echeverria, diretor da divisão de servidores e plataformas da Microsoft no Brasil, é usar o melhor da infraestrutura própria e o melhor da pública. “Um sistema crítico, que fornece informações para um médico durante uma cirurgia, não pode estar sujeito a cair. Se houver um espelho daquele servidor na nuvem, o processamento é transferido em fração de segundos até que o problema seja resolvido, sem que haja interrupções”, explica.

Marcos Paraíso, líder de Cloud Services da IBM no Brasil, afirma que a segurança oferecida por um serviço de "cloud computing" é superior à que se pode ter em um centro de processamento de dados próprio. “A quantidade de recursos de infraestrutura e de pessoas é muito superior a que a maior parte das empresas têm, sem o custo de mantê-la”, diz.

André Frederico, diretor da Tivit, lembra que o e-mail foi um dos recursos pioneiros na nuvem
André Frederico, diretor da Tivit, lembra que o e-mail foi um dos recursos pioneiros em nuvem (Foto: divulgação)

De acordo com Delai, da IDC Brasil, para garantir ainda mais segurança do que o padrão oferecido pelos fornecedores de computação em nuvem, há organizações que estão adotando o que se chama de "multi cloud", com backup de dados em mais de uma nuvem. “Pode haver ainda parte de um sistema de dados em uma nuvem e parte em outra. Se uma delas sofrer violação, o invasor não poderá fazer nada com a informação roubada porque ela estará incompleta”, afirma o especialista.

Segundo André Frederico, diretor-executivo de desenvolvimento corporativo da Tivit, os clientes optam pela nuvem própria ou terceirizada dependendo do tipo de serviço que precisam. “O e-mail foi um dos primeiros recursos a irem para nuvem. Hoje já atendemos empresas que processam todo seu sistema de gestão na nuvem”, conta.

A possibilidade de expandir a capacidade de processamento de dados conforme sua demanda é o que mais atrai as empresas para a contratação do serviço. Por isso mesmo, o setor de varejo foi um dos primeiros a aderir à computação terceirizada via internet para dar conta do aumento do volume de vendas em momentos de pico, sem ter que carregar o custo de um data center ocioso durante o ano todo.

O processamento de dados pode ocorrer em diferentes servidores distribuídos pelo mundo. E por ter que seguir normas mais rígidas em relação ao local onde suas informações são armazenadas, o setor financeiro é o que tem demorado mais para aderir à computação em nuvem. Mas, assim como em outros aspectos de seus negócios, as chamadas fintechs têm sido a porta de entrada da inovação e da adoção de novas tecnologias por parte das instituições financeiras.

“É um grande desafio para uma empresa de décadas mudar sistemas legados para a nuvem. É muito mais fácil criar um novo negócio do que adaptar o que já existe para uma nova tecnologia”, diz Felipe Pontieri, head de TI da Livelo.

A empresa foi criada em 2014 a partir de parceria entre Banco do Brasil e Bradesco e iniciou suas operações este ano com o objetivo de oferecer a melhor experiência no resgate de pontos ao consumidor brasileiro, com diversos produtos e serviços reunidos em um ambiente virtual próprio.

O executivo conta que todos os sistemas responsáveis pela sustentação do negócio da Livelo, desde o website até a conta corrente de pontos dos clientes, estão alocados em uma infraestrutura baseada em nuvem.

“Isso foi possível a partir do desenvolvimento de um modelo de serviço que nos dá agilidade para conduzir as demandas do dia a dia e a execução de novos projetos, mas que, ao mesmo tempo, não deixa de lado os controles exigidos pelas regulamentações do setor financeiro”, esclarece Pontieri.

E a computação em nuvem não é só para os grandes. Ao contrário. De acordo com os fornecedores desse tipo de serviço, as pequenas e médias empresas, a exemplo do próprio consumidor em geral, têm entrado de cabeça nas “e-clouds”, principalmente, pelo seu baixo custo em comparação à aquisição e manutenção de servidores próprios.