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A história registrada hoje no computador e no celular corre o risco de desaparecer. O novo mundo da informação a jato ainda não solucionou o problema da perda de dados a longo prazo, diz Paletta, da USP.

De São Paulo – Há só 20 anos era impensável um mundo tão interconectado, com informação e comunicação on-line para praticamente todas as pessoas, mesmo em países pobres como o Brasil. Até então, um brasileiro com filho estudando na Europa, por exemplo, tinha que se contentar com notícias por carta – sim, papel escrito a mão, acompanhado por vezes de alguns recortes, tudo dentro do velho envelope. Havia disponível telefone fixo e celular também, mas o custo de uma ligação internacional era proibitivo.

Agora, liga-se o celular, aciona-se o Skype ou o Whatsapp e pronto: contatos imediatos, com direito a falar olhando para o outro, nem que ele esteja no interior da Finlândia, ou em qualquer outro lugar que se possa chamar de fim do mundo.

A informação relevante do ponto de vista histórico produzida pelo novo mundo da comunicação digital pode estar tanto em uma foto tirada com celular e postada no Facebook como nos grandes portais de notícia. Como há 100 anos estava nas fotografias em preto e branco, nas cartas escritas a pena e nos jornais, tudo registrado em papel.

De volta para o futuro, em 2116, a vida do ser humano que perambula pelo planeta hoje não poderá ser contada sem considerar o conjunto de pelo menos parte dos registros e informações domésticas, de empresas e governos, pela mídia, redes sociais e mesmo aquilo que jaz em um computador pessoal, como se fossem papéis dentro de um baú daqueles de antigamente. Só que o papel, ainda que amarelado pelo tempo, manteve as informações acessíveis. Já o moderníssimo smartphone e o laptop último tipo ainda não sabem como conciliar a extraordinária velocidade da informação com a necessidade de perenidade para vencer o tempo e revelar seu conteúdo no século que vem.

Zorzo, da SBC, diz que empresas de software trabalham na busca de soluções para preservar dados a longo prazo. Mas ele mesmo ainda recorre ao papel
Zorzo, da SBC, diz que empresas de software trabalham na busca de soluções para preservar dados a longo prazo. Mas ele mesmo ainda recorre ao papel. (Foto: arquivo pessoal)

“Não, o seu bisneto não vai conseguir ter acesso às milhares de fotos que você tem no laptop ou no celular”, resume o professor Francisco Paletta, doutor em ciências da informação da Escola de Comunicação e Artes da USP. A afirmação veio em resposta a uma questão simples que envolve meus antepassados. Recentemente desvendei a história de meus bisavós a partir de cartas e uma foto de mais de 100 anos descobertas numa caixinha no Tirol, fronteira Itália/Áustria. A partir disso, foram revelados detalhes da vinda de Joseph e Teresa para o Brasil. A família – parte no Tirol e parte no Brasil -- se redescobriu um século depois. Tudo por obra do papel amarelado. Perguntei a ele, então, se meu bisneto conseguiria ver minhas fotografias e meus escritos daqui a 100 anos.

“Aquilo que for mais precioso e caro e você quiser que suas futuras gerações consigam saber, nada ainda como a tradicional e milenar técnica do registro no papel. Os pergaminhos do Mar Morto estão aí para demonstrar a eficácia”, complementa Paletta, referindo-se aos documentos escritos em papel e guardados em jarros, dentro de cavernas, com trechos do Antigo Testamento, inclusive o trecho dos Dez Mandamentos, encontrados por pastores em cavernas nos anos 40. Paletta desenvolve estudo de pós-doutorado sobre o desafio da preservação de dados digitais, na Universidade do Porto, em Portugal.

Quando trata do armazenamento de informações empresariais e institucionais, ele elenca três regras básicas para que a informação digital não se perca. “Uma estratégia de preservação digital demanda (1) 'backup' de todo o universo digital relevante, (2) migração permanente de hardware e software para as novas versões e (3) manter cópia dos mesmos arquivos armazenados em nuvem”.

Paletta, porém, ressalta que essas medidas são suficientes para a manutenção de dados a médio prazo e que os modelos digitais de preservação ainda não descobriram solução para a perpetuação da informação original do ponto de vista histórico. Ele cita como exemplo os antigos disquetes, que eram inclusive de uso obrigatório para guardar informações de Imposto de Renda no Brasil há até cerca de dez anos. “Eu mesmo guardei muitos trabalhos meus nos disquetes. Sei o que está dentro de cada um deles, porque estão etiquetados, mas não existem mais máquinas ou programas para abri-los.”

Para o professor Francisco Paletta, a preservação a longo prazo, importante para a história, ainda é desafio digital
Para Francisco Paletta, a preservação a longo prazo, importante para a história, ainda é desafio digital (Foto: Alex Costa)

O mesmo pode ocorrer com fitas cassete e já afeta uma boa parte de CDs e DVDs, gravados década atrás com programas que desapareceram do mapa ou que foram desmagnetizados. “Mesmo o armazenamento em nuvem, que é pago e recebe atualizações periódicas dos sistemas de grandes corporações, não assegura preservação por longo prazo, 100 ou 200 anos, porque essas empresas podem quebrar e o que você terceirizou se perde”, explica.

Os usuários de celular que recebem caixa virtual para armazenar fotos em “nuvem” também sofrem ao perceber que, se trocarem a marca de aparelho, provavelmente terão gigantesco trabalho para recuperar tudo o que está guardado. Para muitos, valerá a pena esquecer a informação ou tentar resgatar apenas o fundamental.

Paletta questiona, além da falta de modelos eficientes de preservação, também a segurança dos arquivos digitais . “Quem tem certeza hoje de que aquilo que você escreve num e-mail ou em seu próprio computador não será invadido? E quando você terceiriza tudo o que você tem de importante numa nuvem, qual a garantia de que aquilo está seguro?”

Fotografia de família achada numa caixa no Tirol: papel ajudou família a se redescobrir após 1 século
Fotografia de família achada numa caixa no Tirol: papel ajudou família a se redescobrir após 1 século (Foto: álbum de família)

Um outro importante especialista em segurança de dados, o professor Avelino Zorzo, da PUC do Rio Grande do Sul e diretor da SBC (Sociedade Brasileira da Computação), assegura que as empresas de TI estão buscando soluções para o problema da perda de informação digital. “Elas vêm desenvolvendo padrões que facilitem acesso a arquivos, mesmo que não tenham sido guardados em seu modelo”, diz.

Zorzo cita o exemplo da Apple, que até há 15 anos fazia computadores com sistemas “proprietários” que não acessavam boa parte dos documentos produzidos nos PCs baseados em Windows. “A partir de então, tudo o que é produzido é acessível, o que caminha na direção da preservação de dados”.

Avelino, no entanto, diz compreender a preocupação de muitos dos estudiosos do mundo digital sobre o risco da perda de memória histórica no longo prazo. “Hoje já é possível preservar, pelo menos em médio prazo, informações por meio da atualização dos programas no computador, tanto o pessoal como o das corporações. Mas eu mesmo, pelas dúvidas, continuo fazendo algumas fotos no papel, em formato de álbum”, explica rindo o professor, que como diretor da SBC (Sociedade Brasileira de Computação), analisa e busca soluções a problemas da comunicação digital.

Tanto Paletta quanto Avelino concordam, porém, que em algum momento futuro não muito distante o papel tende a desaparecer da maior parte das aplicações hoje utilizadas. “Isso já está acontecendo. Estão desaparecendo os chamados “arquivos mortos” das empresas, os jornais diários são aos poucos substituídos pelos portais na internet. Mesmo na área jurídica, que era uma das mais resistentes, documentos digitais já estão sendo aceitos como prova”, diz Avelino, sem, no entanto, arriscar datas. “Talvez o papel resista para alguma função específica, como ocorre hoje com o disco de vinil. Mas não será relevante”, pondera.

Paletta igualmente prefere não prever exatamente quando o digital vai engolir o papel. “Um dia, ainda muito longe, tudo será digital e lá o homem terá encontrado a alternativa necessária para preservar os seus registros”, conclui.