Transporte & Mobilidade/SP

"Uberização" do transporte em grandes cidades faz com que sistemas de táxi e carros particulares via celular se misturem e disputem o mesmo espaço. Consumidor já ganha com preços menores.

São Paulo - Os paulistanos já estão vivendo a surpresa de chamar um Uber e similares e receber em casa, alguns minutos depois, um táxi com o taxímetro desligado pronto para levá-lo ao seu destino por um preço mais baixo. Há, hoje, uma disputa sem tréguas por passageiros em São Paulo e ninguém mais sabe quem é quem. Depois da regulamentação da Prefeitura, que passou a cobrar um imposto municipal da nova modalidade de transporte, a oferta de carros particulares para o serviço disparou.

O efeito direto disso é uma diminuição de 40% no número de corridas de táxi tradicional (cobrado com taxímetro) na cidade, em 2016, segundo a 99, empresa de chamada de veículo por aplicativo no celular, que até meses atrás era "99 Táxi", mas abandonou o sobrenome para aderir também aos carros privados.

Menos do que efeito da crise econômica, essa queda representa o tamanho da perda de receita do mercado tradicional. Estimativas de executivos do setor dão conta de que entraram no negócio, entre 2015 e 2016, mais de 50 mil carros, atraídos pelo Uber, que não divulga seus números, e por outros serviços nascentes, para se somarem aos cerca de 40 mil táxis da capital.

Ainda que o número geral de viagens no sistema esteja crescendo e mais gente esteja deixando o carro em casa para usar aplicativos, a “uberização” do mercado causou uma superoferta de veículos para transporte de passageiros e derrubou os preços médios da corridas. Fez também com que os aplicativos de táxi reagissem e aderissem, nos últimos meses, ao negócio de carro compartilhado e, quase ao mesmo tempo, se acertassem com os taxistas para oferecer descontos na corrida de 30% sobre o preço do taxímetro.

A Easy lançou dois produtos, o Easy Go, para entrar na seara do Uber, e o Easy Taxi Economy, que oferece 30% de desconto em São Paulo.

Daniel Bedoya, do Cabify, concorrente do Uber e, agora, do Easy e 99, diz preferir a oferta de qualidade a entrar na guerra de preços
Daniel Bedoya, do Cabify, concorrente do Uber e, agora, do Easy e 99, diz preferir a oferta de qualidade a entrar na guerra de preços (Foto: divulgação)

A 99, que tem 32 mil taxistas cadastrados na cidade, seguiu na mesma linha e criou seu 99Pop e o Taxi 30% OFF. “O desconto de 30% reflete a queda dos preços médios das corridas”, afirma Ricardo Kaufmann, diretor de marketing da 99. “Com esses novos produtos nos tornamos muito mais competitivos e as corridas de táxis na nossa base voltaram a crescer, em setembro.”

Para o CEO global da Easy, Jorge Pilo, há uma adequação do mercado para um patamar de preços mais baixos e os taxistas estão começando a aceitar modelos de negócio não convencionais e fazendo novas escolhas. O serviço com desconto, que é uma opção do motorista, deixa o táxi em pé de igualdade com o Uber, com a vantagem do primeiro poder andar pelos corredores e faixas exclusivas de ônibus em qualquer horário.

Jorge Pilo, da Easy: modelo novo de transporte e redução nos preços
Jorge Pilo, da Easy: modelo novo de transporte e redução nos preços (Foto: Linkedin)

“Estamos evoluindo para um transporte mais inteligente, sustentado em algoritmos complexos, em que conseguimos entender a situação do passageiro e oferecer uma solucão ideal para ele”, diz Pilo. Da parte do motorista, a chave para se desenvolver na atividade será entender a nova dinâmica da praça e estar disposto a trabalhar mais horas, utilizando todo tipo de recurso de tecnologia disponível, a fim de garantir a manutenção dos seus rendimentos.

Recém-chegada ao Brasil, a espanhola Cabify estreeou suas operações, em junho, em São Paulo, querendo atuar em vários nichos, dar soluções para diferentes necessidades dos passageiros e oferecer uma imagem de qualidade e segurança. “Existe uma briga por volume e preço, mas buscamos nosso próprio caminho”, afirma Daniel Velazco-Bedoya, diretor geral da Cabify no Brasil.

“Acreditamos no rigor do nosso processo seletivo e vamos focar na qualidade e na manutenção da base.” A seleção dos motoristas tem várias etapas e envolve avaliação documental, reunião informativa de capacitação, exames médicos e toxicológicos e avaliação completa do veículo. Em breve, serão incluídos exames psicométricos. A empresa, que oferece dois serviços, o Cabify Lite, similar ao Uber, e o de táxi preto, não divulga quantos motoristas tem em sua base, mas informa que, desde junho, 25 mil candidatos entraram na fila para aderir ao aplicativo e estão sendo selecionados.

Kauffman, da 99: seleção mais rigorosa e "test drive" antes de aceitar motorista para o novo serviço, o "Pop"
Kauffman, da 99: seleção mais rigorosa e "test drive" antes de aceitar motorista para o novo serviço, o "Pop" (Foto: divulgação)

Com a entrada repentina de um grande número de motoristas no negócio, o problema da capacitação de mão de obra tem se tornado evidente. Passageiros com más experiências em carros privados tem aparecido com frequência e apontado para uma necessidade de depuração do mercado. E o mesmo acontece nos táxis. A 99, por exemplo, aumentou o rigor na seleção de seus motoristas visando selecionar os profissionais mais orientados para as novas rotinas de trabalho. A empresa avaliou sua base de 180 mil taxistas em todo o Brasil e descadastrou 3,8 mil deles por algum tipo de inadequação.

Para selecionar os motoristas do 99Pop, montou uma equipe de 30 pessoas que acompanha "test drives", verifica as condições dos carros (cheiro de cigarro é algo que reprova na hora) e faz avaliações psicológicas, de saúde e do conhecimento que os candidatos têm da cidade, basicamente se são capazes de se virar sem o Waze. “A concorrência tem preço competitivo, mas sua avaliação de qualidade está em queda”, afirma Kauffman.

Outro ponto que vai contribuir para uma seleção natural dos motoristas é a viabilidade do negócio. Muitos vão concluir que o esforço não vale a pena. Na situação atual, as margens estão muito apertadas e quem não fizer as contas direito e trabalhar o suficiente, vai acabar no vermelho, depois de descontar a taxa de comissão do aplicativo (Uber e Cabify cobram 25%, Easy, 20% e a 99, 16,99% do motorista), os gastos com combustível e com a manutenção do veículo.