O francês que juntou os motoboys na palma da mão

Transporte & Mobilidade/SP

Ex-bancário se impressiona com a quantidade de motos em São Paulo, cria plataforma para organizar o trabalho deles pelo celular e fica rico em menos de dois anos

De São Paulo - Era uma vez um francês de 24 anos que em 2010 viu na capa da revista The Economist o Cristo Redentor decolando. Pegou a mala e decolou ele mesmo para cá. Tinha um bom emprego na área de fusões e aquisições de um banco conterrâneo em São Paulo, do qual saiu logo depois com dinheiro suficiente para criar uma empresa de tecnologia em mobilidade. Seus amigos e sua mãe diziam que ele era louco de deixar a França e o banco para embarcar numa aventura num setor e num país que não eram os seus. Dito e feito. O empreendimento e seu criador quebraram em oito meses no início de 2013. De bolsos vazios e sotaque ainda carregado, teve nova ideia em tecnologia de transporte ao observar a profusão de motoboys pelas avenidas paulistanas, convenceu investidores a ajudar em sua nova empreitada e hoje, menos de três anos depois, a empresa dele vale pelo menos algumas centenas de milhões de reais.

A história vivida na pele por Fabien Mendez não é tão simples e indolor quanto o resuminho acima. O que a mãe francesa disse, por exemplo, ao saber que ele havia renunciado ao emprego para abrir um negócio longe de casa é algo bem pior do que “você é louco”. “Nem dá pra contar do que ela me chamava”, conta rindo Fabien, o francês que com dois sócios fundou a Loggi, de entregas expressas, em outubro de 2013, uma das startups brasileiras mais bem sucedidas de todos os tempos.

Motoboy da Loggi em ação: mais entregas por quilômetro e renda maior
Motoboy da Loggi em ação: mais entregas por quilômetro e renda maior (Foto: Divulgação)

Em maio, faturou R$ 5 milhões, resultado de um crescimento de 30% ao mês neste ano. Se tudo continuar correndo mais ou menos nessa velocidade, 2016 vai fechar com faturamento acima dos R$ 50 milhões. Em 2015 cresceu 790% sobre seu primeiro ano inteiro de atividades. E para este ano serão mais 600%.

Nada mau para um empreendimento que nasceu e se desenvolveu justamente quando a economia brasileira entrou em parafuso. A ponto de aquela capa da revista The Economist, que atraiu Fabien ao Brasil, ter sido reeditada no ano passado com um Cristo Redentor dessa vez desgovernado e prestes a se espatifar na Baía da Guanabara. 

Mas já era tarde e o ex-financista estava em voo cruzeiro suficiente para ignorar a nova capa da revista. Vamos então à história completa da curta saga de sucesso de Fabien.

A publicação inglesa acreditava em 2010 que o Brasil era a economia da vez, com mix raro entre progresso para pequenos e grandes empreendedores e forte criação de empregos e chances para os mais pobres. Deprimido em meio a uma Europa em plena recessão, o jovem francês fez as malas, conseguiu um emprego no BNP Paribas e se transferiu para São Paulo.

Dois anos em terras brasileiras, deixou o bom salário para criar, junto com um sócio e capital de R$ 200 mil, uma empresa de tecnologia de transporte à imagem e semelhança do Uber – a “Go James”. Logo, o sistema trombou com questões regulatórias, como a que só permitia a taxistas transportar passageiros, e faliu em menos de um ano. Mas por que o Uber está dando certo agora? “Naquele momento, para resistir às pressões e barreiras que se apresentaram era preciso ter mais estrutura e recursos e nós não contávamos com nada parecido com o que tem o Uber”, resume.

Sem dinheiro, mas como uma nova ideia ousada, convenceu investidores a pôr R$ 2,5 milhões numa plataforma de entregas rápidas por motoboys. “Tinha estudado finanças, comecei a trabalhar em banco, mas sempre gostei de programação e brincava de criar ideias para a internet. E sabia que meu negócio era empreender”, conta Fabien.

Tinha quebrado a cara com a Go James. Mas ao ver-se sempre ultrapassado pelas fileiras intermináveis de motoboys pelas ruas e avenidas de São Paulo, algo incomum em metrópoles europeias, começou mesmo de bolsos vazios a pesquisar o fenômeno e a imaginar um aplicativo que organizasse e tornasse mais eficaz aquela movimentação.

“Vi que o serviço de motoboys tinha se multiplicado de forma orgânica nos últimos 20 anos pela impossibilidade de se transportar pequenas encomendas de forma rápida pela cidade, senão usando as motos. Mas percebi que havia gargalos de mau aproveitamento daquelas milhares de viagens diárias”, diz.

Construiu então uma plataforma eletrônica para juntar on-line pelo celular a necessidade de milhares de empresas e pessoas de enviar encomendas expressas com a superoferta de transporte por motoboys. “Somos um ‘market-place’, que conecta demanda com oferta”, resume o empresário.

Diferentemente da Go James, à imagem do Uber, Fabien assegura que a Loggi não se inspirou em nada que já existisse em 2013. “Foi algo pensado para o que eu via em São Paulo. Não sei se daria certo Paris, por exemplo”, avalia.

O sistema funciona por meio de modelos matemáticos integrados a GPS que identificam a posição das motos e as conecta instantaneamente às demandas de entregas na mesma região, de forma a potencializar ao máximo o volume de encomendas por quilômetro rodado. Significa que no meio de um percurso o motoboy pode receber e aceitar pedidos para outros serviços praticamente na mesma rota e com isso trocar o antigo “ponto a ponto” por várias entregas entrelaçadas.

Fabien Mendez garante, no entanto, que o tempo previsto para entrega não se altera com a sobreposição de clientes à rota inicial. A potencialização do uso de trajetos tem também como consequência a redução do custo da operação por quilômetro e a possibilidade de fazer viagens a preços a partir de R$ 12 reais.

“Outro diferencial da Loggi é cobrar apenas 20% do valor das entregas. O motoboy fica com a maior parte, e isso também nos dá muita satisfação. Tem alguns que ganhavam no máximo R$ 1.500 mensais e hoje chegam a receber R$ 4.500. Estamos mudando para melhor a vida dessas pessoas que se arriscam tanto no trânsito.” Para Fabien, a missão da Loggi é se dedicar igualmente a seus dois clientes: o tomador de serviço e o prestador do serviço. “É uma forma legal de agregar valor a uma atividade que sempre foi muito desvalorizada e que está ganhando mais com a Loggi”.

Hoje em São Paulo a empresa conta com 2 mil motoboys credenciados, além de outros 500 entre Rio de Janeiro, Porto Alegre e Belo Horizonte. Possui ainda 250 funcionários contratados, entre eles uma dezena de engenheiros de Tecnologia da Informação que cuidam intensivamente do aperfeiçoamento do software que transforma o motoboy num emissário on-line a partir de um simples smartphone. Cerca de 90% de seus clientes são empresas – parte significativa formada por entregas de e-commerce --  e 10% de clientes pessoas físicas.

Além dos números explosivos de crescimento, a confiança dos investidores ajudam a demonstrar o sucesso da Loggi que completa três anos em outubro. Os R$ 2,5 milhões conquistados de início, em 2013, foram obtidos da Iporanga, empresa brasileira de investimentos em startups, e de apoiadores individuais da “Anjos do Brasil”, a partir do desenho do produto e um plano de negócios consistente. Menos de um ano depois, a empresa de Fabien recebeu mais R$ 10 milhões da americana Qualcom e da brasileira Monashees. E no ano passado veio seu maior aporte: R$ 50 milhões da Dragoneer Investments, de São Francisco, outra investidora voltada a startups.

O francês Fabien, que a todo momento declara sua relação de amor por São Paulo – desde que veio para um intercâmbio universitário em administração de empresas na Fundação Getúlio Vargas –, não revela quanto já vendeu de participação nas ações da Loggi. Apenas ressalta que, apesar de tanto investimento recebido, mantem o controle da empresa. “O importante não é o percentual da empresa que você possui, mas quanto tem para dividir entre os sócios”, sentencia, indicando que o bolo da Loggi a ser repartido vai bem, obrigado. E que se preocupar com manchetes de revistas, para ele, pelo menos, é coisa do passado.