A CIDADE SE MOVE PELO CELULAR

Transporte & Mobilidade/SP

Sistemas que chegaram ao Brasil há só alguns anos ajudam no trânsito, a pegar táxi rápido, compartilhar carro, mandar encomendas urgentes e saber a que horas o ônibus passa

(Foto: Natália Pfeifer/JMS)

De São Paulo -- Quem se lembra como se fazia para encontrar um endereço num bairro desconhecido há até alguns anos? A saída era o guia da cidade, um livrão grosso com índice de nomes de todas as ruas e que te remetia a uma página com o mapa do lugar desejado, mas sem muitas pistas de como chegar lá. E como era chamar um táxi até cinco anos atrás? Simples: celular na mão, tecla-se para uma empresa de rádio táxi e: ¨Senhor, o veículo vai estar chegando de 20 a 30 minutos”.

Google Maps, sistemas de GPS, Waze, 99 Táxi, Easy Táxi, Uber, Loggi, Moovit e outros nomezinhos já estão hoje na ponta da língua de quase todo mundo. Mas a naturalidade com que esses programas para smartphones apareceram nem sempre nos dá a dimensão da revolução que eles provocaram na nossa mobilidade e no movimento daquilo que queremos receber ou encontrar. 

Telles, diretor do Uber no Brasil, defende compartilhamento de carros para melhorar trânsito
Telles, diretor do Uber no Brasil, defende compartilhamento de carros para melhorar trânsito (Foto: Alex Costa)

Tudo passou a estar ao alcance dos dedos, no celular. Clica-se no ícone Waze, insere-se o endereço e a voz digitalizada determina: “Estamos prontos, vamos!” No caminho, virão recomendações como “vire à esquerda”, “na rotatória, pegue primeira saída” e até algum “buraco reportado à frente”, além da indicação de rotas mais e menos congestionadas. O final é o desejado “você chegou ao seu destino”. 

Ok, às vezes o sistema pode te levar a ruas erradas, com nomes parecidos com o do real destino. Também corre-se o risco de ouvir a voz eletrônica pronunciando “rua Pioxi” para a “Pio XI”. Mas pequenas distorções compensam em muito o incômodo de botar o livrão no colo para consultá-lo a cada semáforo e acabar descobrindo tarde que ele está de ponta cabeça.

Mas como surgiram essas soluções?

O Waze é um programa criado em Israel em 2008 por três sócios. Consta que o idealizador do produto, Uri Levine, ficou incomodado ao ganhar um aparelho de GPS, que estava desatualizado já ao sair da caixa. Alterações recentes nos sentidos de ruas ou conversões não estavam registrados. Também não indicava se determinado caminho tinha obras, se havia congestionamento, acidentes, radares de limite de velocidade, etc. Com dois amigos, desenhou então um programa para celular com informações atualizadas on-line de forma interativa pelos próprios usuários.

Pedro Somma, da 99 Táxi: crescimento forte e maior investimento recebido por startups no Brasil em 2015
Pedro Somma, da 99 Táxi: crescimento forte e maior investimento recebido por startups no Brasil em 2015 (Foto: Alex Costa)

O Waze tornou-se sucesso imediato no país de origem, logo passou a ser usado nos Estados Unidos e daí para o mundo. Em 2010 recebeu seu primeiro aporte de US$ 25 milhões e no ano seguinte inaugurou escritório em Palo Alto, nos Estados Unidos. Expandiu-se para a Ásia e chegou oficialmente ao Brasil em 2012.

“O trânsito é um problema universal e sabíamos que um aplicativo gratuito projetado para driblar o congestionamento por meio de uma rede on-line de motoristas, seria uma ótima solução no Brasil. Mas não imaginávamos que o brasileiro iria se empolgar tão rapidamente e permaneceria como um dos que mais usam o serviço no mundo”, diz Paulo Cabral, porta-voz da empresa para a América Latina.

Em 2013, o Waze foi comprado pelo Google por cerca de US$ 1 bilhão. Na região metropolitana de São Paulo, segundo a empresa – que hoje centraliza operações nos Estados Unidos -- são mais de 3 milhões de usuários mensais, que transitam em média por 444 milhões de quilômetros com o aplicativo ligado. “Isso torna o Waze em São Paulo um dos mais ativos do mundo, junto com Paris, Los Angeles e Kuala Lumpur”, completa Cabral.

Criado em Israel, o Waze tem São Paulo como uma de suas três maiores usuárias no mundo
Criado em Israel, o Waze tem São Paulo como uma de suas três maiores usuárias no mundo (Foto: Natália Pfeifer)

Entre as plataformas para táxi on-line, o primeiro aplicativo desenvolvido no país foi a Easy Táxi, fundada em 2012 no Rio pelo empreendedor Tallis Gomes, de apenas 25 anos. Em três anos, a empresa recebeu aportes de R$ 170 milhões principalmente do fundo alemão Rocket Internet, que assumiu o controle da empresa, hoje presente em mais de 30 países e que se diz a maior do segmento no mundo. Tallis deixou o comando da Easy no ano passado.

Também em 2012, meses depois do lançamento da pioneira, nasceu a 99 Táxi, lançada em São Paulo por três sócios -- Paulo Veras (CEO), Ariel Lambrecht (diretor de produto) e Renato Freitas (diretor de tecnologia). A 99 tornou-se nos últimos anos a líder no país em número de taxistas cadastrados. Hoje são 35 mil só em São Paulo, cerca de 60% e 70% de todos os taxistas da cidade. Também passou a atrair investimentos de grupos dedicados em apoiar empresas inovadoras de tecnologia e no ano passado foi a startup que mais recebeu aportes no país: R$ 100 milhões dos grupos Tiger Global, Monashees e Qualcomm.

“Em 2015, nosso faturamento cresceu em média 20% ao mês e continuamos em crescimento forte, embora em uma velocidade menor”, diz Pedro Somma, diretor de Relações Institucionais do 99. Embora não revele faturamento, o aplicativo realiza hoje 4 milhões de viagens mensais nas 350 cidades em que atua no país. E como o novo formato da empresa de cobrança dos taxistas passou a ser de R$ 2 por corrida, a estimativa é de que o faturamento a partir de junho tenha se aproximado dos R$ 8 milhões/mês.

“Nosso sistema contribui com a melhoria do trânsito, porque antes do uso do aplicativo os taxistas rodavam vazios entre 4 a 5 vezes mais do que fazem ao adotar o 99”, afirma Pedro Somma. (Veja entrevista completa no Estúdio GME)

O discurso do executivo da 99 Táxi é semelhante ao do diretor geral do Uber, criado em San Francisco, em 2010, e que introduziu o modelo de transporte on-line por carros comuns no Brasil via celular em 2014. “Nossa tecnologia colabora para tornar o automóvel cada vez mais um objeto de uso e não de posse. Ao se utilizar um veículo que provavelmente estaria circulando só com o motorista dentro, nossos usuários estão reduzindo o número de carros na rua, diminuindo os congestionamentos e a poluição”, conceitua Guilherme Telles, diretor geral da Uber no Brasil.

A empresa não divulga dados de faturamento nem de carros cadastrados. Mas a estimativa é de que hoje em São Paulo haja pelo menos 30 mil veículos Uber em atividade – entre o Uber Black (que custa aproximadamente o mesmo que um táxi), o Uber X (entre 30% a 40% mais barato que o táxi) e o Uber Compartilhado, cujo valor vai depender do eventual compartilhamento com outro usuário. O Uber está hoje em oito regiões metropolitanas brasileiras. A taxa cobrada pela empresa é de 25% sobre cada corrida.

Sistema similar, que junta as pontas de oferta e demanda na mobilidade é a da Loggi, empresa de entregas de encomendas por motos que tem crescido 30% ao mês este ano e cujo faturamento mensal em maio foi de R$ 5 milhões.

Moovit, uma espécie de Waze no transporte público: diz até a hora que o ônibus chega no ponto
Moovit, uma espécie de Waze no transporte público: diz até a hora que o ônibus chega no ponto (Foto: divulgação)

Um dos últimos aplicativos via celular a chegar no país é o Moovit, uma espécie de Waze para ajudar nas rotas de transporte público, que desembarcou no Brasil em 2014. O usuário insere local de saída e de destino e o sistema indica o melhor trajeto para metrô, ônibus e conexões. Para São Paulo e Rio, onde os ônibus têm localizador por GPS, o app prevê o tempo de espera pelo veículo em cada ponto.