Faixas de ônibus multiplicadas. Passageiros, não.

Transporte & Mobilidade/SP

O aumento da velocidade média dos coletivos não conseguiu atrair mais usuários. Para especialista, desprezo ao pedestre e falta de calçada boa para dar acesso ao transporte público é o grande problema.

De São Paulo -- Entre as promessas de campanha feitas pelo prefeito Fernando Haddad, uma pelo menos está cumprida. A atual administração de São Paulo anuncia ter conseguido expandir em 400 quilômetros as novas faixas exclusivas e prioritárias para ônibus urbanos em São Paulo. Jilmar Tatto, secretário de Transportes da prefeitura de São Paulo, diz que a velocidade média dos ônibus em São Paulo aumentou de 13 km/hora para 20 km/hora, a ponto de pesquisa da CET (Companhia de Engenharia de Trânsito da cidade) ter calculado que cada passageiro de ônibus em São Paulo reduziu em média 4 horas a permanência dentro dos ônibus por semana do que ocorria há quatro anos. Apesar disso, o volume de passageiros no sistema não cresceu, ao contrário, contraiu-se no ano passado 0,9%.

Para o engenheiro de trânsito e mobilidade Humberto Pullin, um dos principais gargalos para a ampliação e aumento dos usuários do sistema de transporte de São Paulo, e aí estão incluídas as faixas de ônibus, é o desprezo ao pedestre no modelo. “Nos últimos 20 anos, muito pouco foi feito para o pedestre, o que é um erro estratégico primário, porque as calçadas são as vias prioritárias para dar acesso aos ônibus e ao metrô”, afirma.

Corredor da Avenida Santo Amaro: velocidade média chegou a 20 km/h, mas volume de passageiros diminuiu 1% no ano passado
Corredor da Avenida Santo Amaro: velocidade média chegou a 20 km/h, mas volume de passageiros diminuiu 1% no ano passado (Foto: Alex Costa)

Pullin equaciona o sistema público de mobilidade em conciliar três necessidades básicas do usuário: a acessibilidade (calçadas, rampas, escadas), o conforto dos modais (qualidade dos veículos, ar condicionado, etc) e a fluidez (no caso dos ônibus, a ampliação da rede de faixas exclusivas). “A preocupação só com o segundo e terceiro quesitos não resolve o problema. É preciso ter calçadas boas, seguras, para permitir caminho seguro principalmente a idosos e pessoas com deficiência. Caso contrário, o usuário vai continuar preferindo o carro, porque é aquele que te leva de porta a porta”, questiona Pullin.

O secretário Jilmar Tatto responde dizendo que a atual gestão conseguiu aprovar uma lei que elevou a multa contra o proprietário de imóvel que não ofereça condições adequadas às calçadas diante de suas casas e comércios. Desde 2013, a prefeitura pode multar em R$ 300 por metro linear quem tiver calçadas deficientes (buracos, pedras soltas ou falta de piso adequado) e, ao mesmo tempo, concede prazo de 60 dias para a reforma e regularização mediante padrões exigidos pelo município. Caso a obra seja feita e o problema sanado, a multa é cancelada. Senão, além da multa, a prefeitura conserta o piso e cobra do dono do imóvel.

São Paulo tem 35 mil quilômetros de calçadas e o secretário diz que depois a implantação da lei no final de 2013, estão sendo reformados cerca de 200 quilômetros lineares por mês na cidade. O secretário explica que em muitos bairros periféricos, formados a partir de ocupações de áreas e em terrenos acidentados, a aplicação da nova lei torna-se mais complicada. Mas que na maior parte de São Paulo a multa tem dado resultado. Diz ainda que os rebaixamentos de calçada feitos para as ciclovias acabam ajudando na mobilidade das pessoas com alguma deficiência. “É suficiente¿ Não. Mas estamos no rumo certo.”

Ciclofaixa e calçada ruins. O desprezo ao pedestre seria responsável por afastá-lo do transporte público, diz especialista.
Ciclofaixa e calçada ruins. O desprezo ao pedestre seria responsável por afastá-lo do transporte público, diz especialista. (Foto: Alex Costa)

Pullin concorda que as medidas não são suficientes. “A prefeitura deveria assumir a reconstrução das calçadas, porque hoje não existe padronização. Em alguns lugares o morador pensa em deixar sua calçada mais bonita, mas usa pedras escorregadias, um risco enorme para crianças e idosos, que precisam muito dessas vias bem cuidadas”, diz o consultor de tráfego que é também diretor da Abrasp – Associação Brasileira de Pedrestres.

Pesquisa do Datafolha de 2014 mostra que 79% dos paulistanos usam ônibus e 7%, as próprias pernas todos os dias para ir ao trabalho e à escola. Considerando que boa parte dos que indicaram ônibus como o meio mais utilizado caminham várias quadras para se dirigir até os pontos, pode-se dizer que quase 90% da população da cidade andam a pé para tomar ônibus todos os dias, o que torna as calçadas fundamentais na acessibilidade aos veículos.

Tatto salienta que o projeto para o transporte da atual gestão da prefeitura, embora já tenha alcançado os 500 quilômetros de corredores e faixas, é bem mais ambicioso, de longo prazo e envolve série de outras melhorias, incluindo as calçadas e benefícios para o pedestre. “Estamos democratizando o sistema viário da cidade, que em sua maioria transporta pessoas em ônibus, mas até há pouco tempo eles não recebiam o tratamento prioritário que devem ter. Ao contrário, a maior parte do espaço do viário sempre foi dominada por carros que levam muitas vezes uma única pessoa. Essa mudança é uma visão moderna de pensar a cidade”, conclui o secretário.