AEROPORTOS PAULISTAS PRIVATIZADOS SÃO 'TOP5'

Transporte & Mobilidade/SP

Pesquisa mostra que Guarulhos e Viracopos (foto) estão entre os preferidos dos usuários. Os dois juntos respondem por 50% do total de cargas aéreas no Brasil.

De São Paulo - Se São Paulo se orgulha de ter as melhores estradas, pode bater no peito para dizer que (agora) também tem dois dos cinco aeroportos mais bem avaliados pelos passageiros brasileiros. Na mais recente pesquisa feita pelo Ministério dos Transportes, Portos e Aviação Civil, o aeroporto de Guarulhos, na grande São Paulo, obteve nota 4,40 de 5 possíveis e é o terceiro melhor aeroporto do país, segundo os usuários. O Afonso Pena, em Curitiba, obteve a maior nota na somatória de todos os quesitos, 4,64, seguido do aeroporto Santos Dumont, 4,44.

O também paulista Viracopos, aeroporto internacional que fica em Campinas, interior de São Paulo, também figura entre os cinco mais, e obteve nota 4,34 na média e uma das únicas notas 5 de toda a pesquisa: ele é o que tem menos fila no check-in, segundo os usuários. Foram 13.452 entrevistas com passageiros que circularam pelos 15 maiores aeroportos brasileiros no segundo semestre de 2016. Guarulhos, inclusive, foi um dos destaques e considerado pelo Ministério como um dos aeroportos que mais evoluíram em relação ao mesmo período do ano passado.

Apesar de estar no topo, Viracopos foi multado em maio deste ano pela Anac, a Agência Nacional de Aviação Civil, em R$ 95 mil "por deixar de cumprir o prazo de entrega das ampliações contratuais previstas no primeiro ciclo de investimentos, encerrado em 11 de maio de 2014", informou a agência. Segundo o órgão federal, a Aeroporto Brasil - Viracopos S/A, não entregou obras no pátio dos aviões, no estacionamento e no terminal de passageiros na data estabelecida em contrato, ainda 2014. A empresas recorreu da decisão.

erminal 3, do Aeroporto de Guarulhos, inaugurado para a Copa de 2014. Espaço é o mais luxuoso no país e o aeroporto, o segundo em avaliação de usuários
Terminal 3, do Aeroporto de Guarulhos, inaugurado para a Copa de 2014. Espaço é o mais luxuoso no país e o aeroporto, o segundo em avaliação de usuários (Foto: divulgação)

O aeroporto de Campinas foi arrematado pelo Consórcio Aeroportos Brasil em fevereiro de 2012, por 30 anos, com investimentos da ordem de R$ 8,72 bilhões previstos até o fim da concessão. Apesar dos atrasos iniciais e multa da Anac, desde abril deste ano os passageiros dos voos domésticos embarcam e desembarcam no novo terminal de passageiros, uma moderna estrutura em concreto, aço e vidro, com 28 pontes de embarque, sete novas posições remotas de estacionamento de aeronaves, que elevou a capacidade do aeroporto para 25 milhões de viajantes por ano, embora o recorde histórico seja menos da metade disso, 10,3 milhões de passageiros em 2015. "Viracopos foi o que obteve melhor índice de pontualidade nacional no período de fim de ano", comemora seu diretor-presidente, Gustavo Müssnich.

A Anac também advertiu a concessionária do Aeroporto Internacional de Guarulhos, a GRU Airport, pelo descumprimento contratual que obriga que a empresa avise previamente à Agência sobre qualquer alteração promovida nos contratos das apólices de seguros. Tirando essa pequena turbulência, Guarulhos voa em altitude de cruzeiro. Leiloado em 2012 por R$ 16,2 bilhões, a concessionária construiu um novo terminal, o "3", o mais luxuoso do país, que aumentou a capacidade de 30 milhões de passageiros/ano para 42 milhões, duplicou a oferta de vagas para carros ao erguer um edifício garagem e aumentou o pátio de aeronaves que agora tem capacidade para 123 aviões pousados.

Desde a concessão, era grande a expectativa de como o aeroporto ia se comportar durante a Copa do Mundo, em 2014.  Meses depois de passar no teste, a concessionária focou em novas obras e começou a modernizar o Terminal 2 com ampliação de áreas operacionais como check-in, raio x, controle de passaporte, restituição de bagagens e maior oferta de lojas de alimentação. A obra deve terminar no segundo semestre de 2017. 

Ano passado, Guarulhos recebeu cerca de 39 milhões de passageiros e, embora seja o aeroporto mais movimentado do país, não figura na lista dos 30 que mais recebem passageiros do mundo, segundo dados divulgados pela Airports Council International (ACI). Segundo o Professor Nicolau Gualda, Campinas e Guarulhos sofrem com a falta de opções de acesso. Em março de 2002, o projeto da linha de trem entre São Paulo e o Aeroporto internacional foi a razão de um convênio entre a Infraero e a CPTM. Pelo acordo, a linha São Paulo-Guarulhos deveria ser construída até 2005. Não foi.

As obras de mobilidade previstas para ligar a cidade a esses dois aeroportos na época da Copa de 2014 também não saíram do papel. "Sem transporte fácil e barato, os passageiros optam por pousar no Aeroporto de Congonhas, que fica dentro da cidade. Quem quer gastar de táxi mais do que desembolsou na passagem área?", pergunta Gualda. Congonhas fechou 2015 com 19 milhões de passageiros.

Aeroporto de Congonhas, o único dos grandes de SP não privatizado: Infraero moderniza estrutura interna e externa do terminal urbano
Aeroporto de Congonhas, o único dos grandes de SP não privatizado: Infraero moderniza estrutura interna e externa do terminal urbano (Foto: divulgação)

Como as concessões obtiveram boa avaliação de crítica e de público, a Infraero ensaia, desde antes da mudança de governo, parcerias com a iniciativa privada em outros aeroportos que ainda estão sob seu guarda-chuva, como Congonhas. Segundo a Infraero, os planos estão mantidos pelo novo presidente da Instituição, Antonio Claret, que assumiu o órgão em maio. O vencedor da licitação de Congonhas, que deverá ser aberta ainda nesse semestre, terá de ampliar o atual terminal de passageiros, construir um novo edifício garagem e um empreendimento comercial, além de ser responsável pelos investimentos e manutenção do aeroporto por 25 anos.“Os estudos voltados às buscas de parcerias privadas para aeroportos de maior porte têm como principal objetivo impulsionar os negócios da Infraero, historicamente suportados apenas por sua própria geração de caixa e por recursos do Tesouro Nacional”, afirmou a instituição por meio de nota.

"Num determinado momento da história foi importante a ação da Infraero, porque não havia capital privado interessado em construir e operar aeroportos. Hoje não faz mais sentido, pelo contrário, sua presença é contraproducente” afirma Josef Barat, ex diretor da Anac e coordenador do Núcleo de Estudos Urbanos da Associação Comercial de São Paulo, sobre as privatizações. 

Mas essa não é a única mudança na pauta da estatal. A empresa estuda a possibilidade de promover uma reestruturação societária, que pode resultar na criação de subsidiárias da Infraero que se tornariam sociedades de capital misto controladas por ela e constituídas com ativos das participações acionárias dos aeroportos concedidos (a Infraero tem 49% dos aeroportos de Brasília, Guarulhos, Viracopos, Galeão e Confins).

Saindo do eixo São Paulo-Guarulhos-Campinas cabe ao governo do estado de São Paulo a missão de administrar cerca de 26 aeroportos regionais. Alberto José Macedo Filho, Secretário Estadual de Logística e Transporte do Estado de São Paulo afirma que há interesse de percorrer o mesmo caminho da Infraero e conceder a administração de pelo menos parte deles para a iniciativa privada. 

"Lançamos recentemente a concessão dos aeroportos de Jundiaí, Bragança Paulista, Itanhaém, Ubatuba e Campinas. A modelagem prevê um único ganhador, 30 anos de concessão e investimentos de R$ 90,1 milhões", afirma. Embora acredite que a privatização seja o melhor caminho para profissionalizar o setor, o professor Nicolau Gualda diz que nem sempre ela é possível. "Quem assume, assume um negócio. Quer fazer dinheiro. E nem todos os aeroportos dão dinheiro", afirma.

O Aeroporto Internacional de São Paulo/Guarulhos também é o líder no país em movimentação de cargas, tendo em segundo lugar o Aeroporto de Viracopos, em Campinas. Os dois terminais respondem juntos por cerca de 50% de todo o movimento de cargas nos aeroportos no país, cerca de 800 mil toneladas por ano. Mas mesmo com esses números que parecem promissores, esse modal ainda engatinha no Brasil. Segundo a Latam Cargo, a principal operadora aérea de cargas internacionais de importação e exportação no país: apenas 0,5% das cargas transportadas em território nacional usam o avião como meio de transporte.

De olho nessa oportunidade do mercado, um grupo de executivos da Azul Linhas Aéreas deixou a empresa para se unir e fundar a Modern Logistics, que pretende oferecer até o final do ano transporte aéreo de cargas no Brasil com aviões próprios. A empresa aguarda a certificação junto a Anac, para começar a operar. Os executivos acreditam que em pouco mais de dois meses o primeiro avião, um Boeing 737-400 que já está estacionado no pátio de Viracopos, decole.

A ideia é que a Modern Logistics termine 2016 com duas aeronaves no ar e, ano que vem, invista em aviões turbo-hélice que possam pousar em aeroportos menores, em todas as regiões do país. "O principal foco das empresas aéreas brasileiras é o passageiro. As rotas oferecidas por elas não são necessariamente as mais interessantes para o transporte de carga", aposta Adalberto Febeliano, Vice-Presidente Comercial e de Marketing da Modern Logistics. "Como parte do volume de carga embarca em aviões de passageiros, cargas perigosas ou grandes demais ficam de fora dos aviões", completa, afirmando que já está em negociações avançadas com empresas de tintas automotivas e maquinário pesado, que têm restrição de embarque em voos comerciais.